
Parei hoje para escutar um CD, e o escolhido foi uma gravação da violinista e pianista alemã Julia Fischer com a Orquestra Nacional Russa, sob regência de Yakov Kreizberg, selo PentaTone Classics.
Trata-se do Concerto para Violino e Orquestra de Tchaikovsky. Não há o que se falar desse concerto. Desde criança que eu o escuto ardentemente, e durante vários anos, já adquiri várias versões dessa grande e apaixonada obra, muitas delas de excelente qualidade.
Pois bem, falemos do concerto. Esse concerto tem um tema inesquecível em seu primeiro movimento, que é desenvolvido primeiramente pelo violino depois de uma breve introdução do mesmo. A maneira como a orquestra acompanha esse tema, com pequenos dedilhados e acordes conjuntos do naipe de cordas dá uma leveza muito bonita. Esse mesmo tema é repetido, e a participação da orquestra aumenta aos poucos: durante esse primeiro movimento, há uma hora em que ela repete o movimento, agora de maneira mais brusca. O tema vai sendo desenvolvolvido. Tem alguns acordes de estrema beleza nas notas agudas do violino, cuja emoção só é possível graças à intérprete - escutei a gravação de Hilary Hahn, e não senti emoção alguma, tinha alguma coisa fria nela, que não interagia bem com a orquestra; Hilary se dá melhor com música contemporânea, o concerto de Schoenberg está fantástico, mas o romantismo não é a sua área -, e Julia Fischer tem um domínio emocional e técnico sensacional. O desenvolvimento das melodias vai ficando claramente paganinianas (Nicollo Paganini foi um virtuose do violino, talvez o maior, e escreveu os 24 Caprichos para violino solo, as obras mais difíceis do repertório violinístico para qualquer violinista, e Julia, em outra gravação, dá um show nesses Caprichos), com aqueles arpégios tão característicos, que lembram o desenvolvimento do concerto para violino no.1 de Paganini. Apesar de não ser muito original, esse desenvolvimento introduz bem a parte final do movimento, que é fechado da maneira que Tchaikivsky gosta: a orquestra muito ativa, rápida, desenvovendo pequenas melodias em vários tons diferentes, em repetições breves que dão enfase e tensão ao trecho procedente. E irrompe numa quebra de melodia onde o violino ataca novamente com uma grande energia. E a orquestra surge novamente, criando uma espécie de fogos de artifício com seus naipes.
O segundo movimento é bem curto e lento, e não me atrai mais como antigamente. Mas a orquestra e a virtuose dão seu melhor. Começa com temas leves, orquestração predominante de instrumentos de sopro, como flauta, oboé e clarinete, muito parecido com a abertura de alguns trechos de O Lago dos Cisnes, em algumas danças e principalmente no Romeu e Julieta, compostas pelo próprio Tchaikovsky. O desenvolvimento se dá como uma canção suave e delicada (não é à toa que se chama Canzonetta), bonita sim, mas que não sei porque o motivo dela não me animar muito. Apenas acho muito monótono. Talvez esteja saturado da orquestração de sopros. Quando o naipe de cordas dá suas aparições sutis, já me entusiasmo mais. Parece que ele quer nos introduzir a um mundo místico e cheio de magia (e funciona bem em O Lago dos Cisnes, mas aqui tudo me parece sem propósito).
O terceiro movimento é animado e tem trechos que dariam muito bem no filme Fantasia de Walt Disney. Tem uma marcha lenta mas não menos divertida antes do desenvolvimento da melodia secundária. O tema da marcha vai ficando mais enégico e vira uma dança, depois o naipe de sopros o desenvolve a partir dos seis minutos. Essas marchas também são bem características de Tchaikovsky. E a obra vai se fechando com o festejar da orquestra e do violino.
Pelo que vocês viram, não acho Tchai muito original, mas ainda assim, esse primeiro movimento é arrebatador, e Julia Fischer me emociona a cada gravação que eu a escuto (estou apaixonado por ela).
Tchaikovsky é um romantico tardio, quando o Modernismo já estava dando as caras, onde estéticas novas, harmonias mais exóticas estavam dando as caras, Tchai continuava com os acordes consonantes tradicionais, o tonalismo. Mas considero um erro grave subestimá-lo. Ele era um grande melodista, e isso não é algo para se ignorar.
Se quiserem adquirir o CD, podem comprá-lo na Amazon (nunca comprem música erudita pela Livraria Cultura!!!!), ou então baixá-lo aqui: http://orchestralworks.blogspot.com/2009/10/julia-fischer-tchaikovsky-violin.html
É isso, espero que gostem.