sábado, 9 de abril de 2011

Contra o luto da mídia

     

     Não há paredes suficientes para fazer ecoar os gritos de mães que tomaram em suas mãos o sangue morto de seus rebentos; e mesmo que as houvesse, quais ouvidos seriam capazes de tais gritos compreender? Quais seriam capazes de traduzir em frases bem estruturadas, em argumentação lógica, um estado de espírito coletivo onde a lógica parece não ter mãos suficientes que a possam sustentar? Mas ainda assim, diante de tanto sangue e sofrimento, é preciso que se encontre uma base lógica para o caso, uma base guiada pela falta de descriminação e julgamentos prévios para com o assassino Wellington Menezes de Oliveira. Só assim se evita o poder negativo da mídia sensacionalista, que infelizmente hão de explorar essa história como alguém que para fazer suco de laranja a espreme com muita força até tirar a ultima gota, e para deixá-lo ainda mais doce, põe bastante adoçante, que é para não engordar. O efeito, por ironia, será o oposto, já que muita gente “indignada”, ao invés de ir para as ruas fazer seu papel social, ficarão presas às “notícias urgentes” de repórteres como Datena por muitas semanas, se esquecendo de que o planeta, em escala humana, é imenso, mas ao mesmo tempo, pequeno demais para que os problemas internacionais não nos afetem; essas pessoas vão ficar morbidamente obesas: adoçante só é para quem é diabético!!!

     Pois o fato é que esse caso deve ser explorado sob as luzes da sociologia e da psicologia.
     É um fato triste que, depois de 21 anos desde que se houve notícias do primeiro incidente dessa natureza, venha a chegar numa escola brasileira barbárie semelhante. O problema é que esse incidente cruel é uma peça de dominó que empurrará a procedente num jogo de colunas, é uma reação em cadeia que se tem início e, se tem fim, nunca saberemos qual será a ultima pedra branca a cair. Uma pedra, porém, só cai se é empurrada por outra. A questão que proponho: quais são os mecanismos que fazem com que a peça seguinte caia?
     Tem o ato em si. O assassino provavelmente sabia que chamaria atenção da mídia nacional e internacional, a não ser que o crime tenha sido passional, o que não foi o caso. Aí é que está o problema: de fato, a mídia ficou impressionada, e como ela age de acordo com as reações emocionais do público, começam a chamar o assassino de monstro, de anomalia mórbida, de corpo sem dignidade, para exaltar ainda mais a reação de ódio.
     Tem também a questão da comoção internacional, de um prolongado luto, que pode durar muito tempo, tendo às vezes até memoriais e passeatas anuais no aniversário das tragédias.
     Ninguém gosta de ser esquecido. Com exceção de poucas pessoas, todo mundo deseja ser eterno de alguma maneira, seja realizando uma obra artística ou humanitária significativa, seja construindo pilares para o futuro. Mas também, há a maneira mais cruel, e muito mais imediata, de ficar na memória das pessoas.
     Agora, imaginemos a mente de uma pessoa que sempre se sentiu um invisível para o mundo, e não só para o mundo, mas para todos os seus próximos. Uma pessoa que não enxergava diante de si, mesmo que as houvesse, oportunidades de crescer de alguma forma. A maioria desses casos, se não todos, foram motivados pelo bullying que os assassinos sofreram. Isso não é novidade, e é amplamente explicitado pela mídia. Diante do bulliying, eles se sentem oprimidos, se sentem passivos. E já começam em suas cabeças a sonhar com a atividade, em ser capaz de anular a atividade dos seus opressores. Tem gente que consegue criar certos mecanismos de defesa, como deixar a sua voz mais alta, a fim de ser escutado por todos, mas de uma forma não natural; outros conseguem levantar o olhar antes cabisbaixo e olhar olho a olho, sem desviar de seus possíveis interlocutores. Não sei se aqui se adéqua 100%, mas podemos até dizer que é um caso de seleção natural Darwiniana, em que os que sobrevivem se tornam mais fortes, e os mais fracos perecem.
     Perecem ao cansaço, à passividade, ao olhar que perde sua capacidade de se surpreender. Ficam sozinhos com seus próprios pensamentos, que vão ficando cada vez mais sombrios e egocêntricos, ou seja, a noção de coletivo e comunidade vão ficando distantes no que concerne ao seu desenvolvimento como fruto de união. Imagens de pessoas de mãos dadas vão ficando sem sentido para eles – e seus objetivos se concentram em como cortar com uma tesoura as mãos que unem as pessoas.
     Uma das imagens mais significativas do filme sueco “Deixe Ela Entrar” é aquela em que o garotinho Oskar, de 10 anos de idade, sozinho em seu quintal, começa perfurar com uma faca afiada o tronco de uma árvore e dizer: “Grita, grita!” Ele sofria sérios bullyings físicos na escola, e guardava seu sofrimento para si, até conhecer a vampirinha que se torna sua paixão e confidente. E aí está outro problema: ninguém gosta de ouvir as lamentações dos outros, e se a escutam, logo fala para o lamentador que ele deve tentar lidar sozinhos com seus problemas, pois cada um tem os seus próprios. E isso salienta ainda mais seu isolamento.
     Então, uma hora, eles explodem. Resolvem ter o poder uma única vez. Resolvem entrar para a história, mesmo que seus nomes fiquem tachados eternamente como monstros e desumanos. O que importa é que logo em seguida ninguém o esqueceria, todos iriam querer saber quem ele era. Ele ficaria para a história, para o bem ou para o mal. Só assim sua voz seria escutada.
     É um efeito de espelho: o próximo assassino verá a comoção mundial, e irá querer imitá-los (não é a toa que todos se suicidam).
     Mas, se todos esses casos são efeitos dominó ou de espelho, porque o primeiro desses casos aconteceu, se não havia precedentes? Minha opinião: os EUA são um país com a mentalidade armamentista arraigada, neurótica e com medo. A soma de tudo isso faz com que armas sejam de fácil acesso. Esse primeiro caso é fruto da paixão por armas dos EUA. Talvez eu esteja sendo preconceituoso, e se estou, gostaria de ouvir argumentos contra essa afirmação.
     Enfim, espero que esse texto sirva como uma pequena reflexão. Só depende de cada um de vocês se vão dar corda para a mídia sensacionalista. Ela é a maior responsável por tudo isso.



              

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