quarta-feira, 20 de abril de 2011

Subindo a encosta

     
Quando peguei pela primeira vez um livro de Friedrich Nietzsche nas mãos, incentivado a lê-lo por meu querido Sebastião Simão Filho, que já há algum tempo não vejo, não imaginava que iria me encantar de tal maneira pelos desafios que ele propõe. Naquela época eu fazia teatro e enfrentava grande insegurança num lugar onde não se poderia ter medo de se jogar os dados.
     Até eu ler o trecho em que Zaratustra dizia para o equilibrista moribundo depois de um atentado de outro equilibrista que o quisera atropelar na corda bamba: “fizeste do perigo o teu ofício, coisa que não é para se desprezar”. Então percebi que eu estava muito seguro numa das plataformas que ligam um lado e outro da corda bamba, e que teria muita dificuldade para me arriscar a dar um primeiro passo naquela linha tênue em direção ao outro lado. E era isso o que o teatro me exigia, que eu chegasse ao outro lado. Se eu olhasse para baixo, com certeza eu cairia.
     Hoje sei bem que, apesar de conseguir chegar até a metade da corda, caí quando olhei para baixo e vi lá pessoas queridas gritando para mim:
     “Você não vê que andar de um lado a outro da corda bamba não vai te trazer dinheiro, conseqüentemente, não terás conforto, nem mulheres, logo, não terás felicidade?”.
     “Onde você vai viver? Vai ser sustentado pelos pais para sempre?”
     Sucumbi então a esse tipo de terror psicológico. Lembrei que fazer teatro não era de graça. Percebi que a maioria dos grandes artistas tinham morrido sem serem reconhecidos em vida, pobres conseqüentemente;  suas viúvas, porém lograram conforto e riquezas com o sucesso posterior de seus maridos. Mas essas glórias póstumas não me consolavam, pois eu ainda não tinha feito nada que fosse grande e merecedor da posteridade. Hoje, vejo que ser artista não é estar no palco, eu também estive lá. Ser artista é atravessar a linha sem olhar para baixo, ou cair encarando o horizonte. Eu caí imaginando o abismo negro e profundo embaixo de meus pés.
     Nietzsche continuava pregando que devemos explorar nossos limites. Isso consiste em conseguir liberar nosso espírito criador, um espírito que não se detém pela inibição, pela timidez, pelo medo, pelas palavras doutrinárias de seitas religiosas ou de indivíduos singulares. O problema é que eu via em Nietzsche palavras doutrinárias, e fiquei com a sensação de desconforto de, ao acabar de ler suas palavras, não conseguir abandoná-las, não as considerar simplesmente uma inspiração para o caminho que eu devia procurar sozinho, eu, meus pensamentos e minha ousadia, que eu deveria buscar.
     Agora já faz três anos que eu não faço teatro, não convivo mais com a busca pela criação. Nesses últimos anos, com os estudos para o vestibular, me acostumei com a criação dos outros. O que estudamos em história supostamente são as histórias mais relevantes em um nível mais amplo das histórias individuais, mas biografias ocasionais expunham o quão criativos, ousados e dignos de figurar na memória de todos tais biografados eram; por trás da física, da química, da biologia, há o raciocínio criativo de grandes pesquisadores que possibilitaram tais descobertas.
     Por muito tempo me resignei com esses saberes alheios, admiráveis, mas não meus. Aos poucos fui me esquecendo das palavras de Nietzsche, mas não procurei meu próprio caminho, minha própria criação; nunca abandonei o conforto. Estudei para ganhar dinheiro. E não ousei. Não que eu não seja capaz de ousar na faculdade: posso me aventurar nas pesquisas, não ter medos de encarar as possibilidades que me surgem.
     Mas um dia acordei com as lembranças de um outro texto de Nietzsche, um poema de duas linhas inserido em “A Gaia Ciência”:

                                   A encosta
      “Como é que se deve subir a encosta?”      
     Simplesmente sobe e não penses nisso!

     E então eu entendi porque olhei para baixo: eu pensara demais. Ser artista, pois, era agir sem pensar, transcender ao eu e encontrar o si mesmo. Vi, então, que apesar de ter caído da corda bamba, nada poderia me impedir de subir novamente no picadeiro. A busca pelo meu caminho próprio deveria continuar. Eu deveria aprender a ousar, a experimentar, com meu corpo, com meus gestos, aquilo que poderia, pelo meu medo, quebrar a minha coluna.
     Comecei a praticar a patinação. Sinto que pela primeira vez estou realmente ousando comigo mesmo. Não tenho medo de cair, e estou sempre olhando para o horizonte. O que procuro já não é a segurança, é justamento o contrário, o risco e a instabilidade. Não imaginas como ela me faz bem.
     Já estou em cima da plataforma novamente. Estou pronto para dar um novo primeiro passo.
      

Um comentário:

  1. Amigo, seus textos são um consolo e um gatilho para aqueles que necessitam de apoio moral para transgredirem a si próprios.Um abraço!

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