quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Páginas de diário pessoal 1 - Passei em Biomedicina

Eu passei em Biomedicina. Estou sim muito feliz por isso, mas não falo para ferir aqueles que não passaram, para que eles fiquem tristes nem se achem inúteis ou incompetentes. A hora deles irá chegar, como a minha chegou agora, depois de muita espera e esforço: terminei o ano esgotado, mas ao ver o Listão (e ponho em letras maiúsculas para salientar a importância que uma mera lista tem para muita gente ansiosa), renasci.
   Eu custei muito a ver uma luz no fim do túnel durante meus estudos, minha reprovação me era iminente, e eu era um garoto frustrado com os anos anteriores, que no meu ponto de vista atual foram improdutíveis, ou então, produzi menos do que minha capacidade permitia (talvez no futuro, como já em outras vezes me ocorreu, minha visão mude). Mas então: voilà. O Listão saiu. Eu, com tão pouca vontade de não ver meu nome na lista, nem fiquei curioso de olhar o resultado, pois sabia que não iria passar. Estava na casa de minha tia, vendo meu primo fazer malhas impressionantes com o Paint, assistindo a Harry Potter ao lado de minha prima, lendo “Amor em Terra de Chamas”, não me lembro exatamente o que fazia. E então o telefone tocou, e tudo e todos ao meu redor, como eu me lembro hoje, pareceu que havia parado. Foi um recurso cinematográfico que criei em minha mente, inconscientemente (ou não, já que o estou mencionando aqui), para que aquele momento me parecesse mais especial e importante do que ele realmente é ao longo do tempo, e o gostinho da vitória permanecesse em meu paladar, que aroma fosse se desenvolvendo aos poucos, bem lentamente, no fim, interferisse na explosão de todos os meus sentidos.
     No telefone, minha mãe chorava, e eu não entendia o porquê, a voz dela estava embaçada, e ela tentava me passar uma mensagem que eu não compreendia. E então, ouvi pessoas por trás do telefone gritando que nem leões famintos, e fiquei com medo de que eles fossem me devorar. Só então percebi que eram gritos de euforia, de torcida. E então, com aquilo tudo, deduzi o que minha mãe me dizia “Meu filho, você passou!!!” e eu sem compreender, fiquei parado, observando minha prima Laís me observando sem me entender do mesmo jeito.
     É fundamental que o corpo esteja preparado para receber determinadas informações e se manter em pé, em terra firme, sem se tremer e os músculos não se contraírem. O problema é que nossas reações são trabalhadas em conjunto com neurotransmissores, que por fim, fizeram minhas pernas tremerem. Eu depois não pensei mais nas pernas tremendo, eram pernas tremendo e nada mais. O que poderia haver além de uma perna tremendo? Nada mais?
     Depois que desliguei o telefone, logo após ter recebido a notícia, fui até a mesa na sala de minha tia e retomei o livro. Antes, as palavras daquele livro pareciam-me difíceis, ou desconexas. Precisava repetir algumas vezes para entender alguns parágrafos. Não que o livro fosse complicado, apenas tenho dislexia e minha concentração é relativamente baixa. Mas agora, por milagre, eu entendia tudo. Já não estava pensando no fato de que havia passado em biomedicina, estava muito, mas muito concentrado no livro, e li sete páginas sem precisar repetir uma linha sequer.
     Algumas semanas depois, fiquei pensando na minha frieza diante desse fato. Meu ano de estudos havia sido recompensado e eu, frio como nunca, lendo um livro, com um aspecto todo calmo. Se alguns de meus futuros colegas de classe me vissem com uma reação daquelas, não me surpreenderia que falassem “você não merece esse curso, não dá o mínimo valor para ele!”, e não os questionaria.
     Por que será que eu reagi daquele jeito? Queria ter pulado de alegria como um menino que vi no youtube; queria ter mandado essa notícia para todos (minha família fez isso por mim, e eu, sem explicação, me senti um pouco incomodado com isso), queria estar com vontade de comemorar, mas quando marcaram uma pizzaria para comemorarmos, fui meio a contragosto.
     Minhas pernas tremiam. Nada mais? Minha leitura fluiu naturalmente. Acho que essa foi a minha maneira de demonstrar como eu estava satisfeito. Foi assim que eu expressei meu contentamento. Às vezes, eu me sinto tão estranho com minhas reações imprevisíveis, me sinto perdido com o que os outros pensam de mim, pois as vezes não compreendo suas reações, e quase sempre penso em como estou desagradando. Detesto isso. Mas agora, percebo que não sou uma pessoa fria. Apenas sou diferente. Ainda bem que sou assim.
     Cíntia e André, minha irmã e seu namorado, insistiram para que eu raspasse a cabeça. Depois de muita insistência, acabei cedendo e rasparam à gilete. Nos dias seguintes, me senti como um verdadeiro tubarão: minha cabeça estava arranhando muito. Eu deixei eles rasparem porque pensei “já que serei pelado no futuro (minha cabeça já demonstrava isso, vou ser que nem meu tio Amilton), melhor experimentar pra já ir acostumando”, e assim foi. Até que o cabelo cresceu rápido, embora ainda está, nesse momento, como se eu tivesse passado uma máquina 2.
     Mas aos poucos, minha frieza inicial foi sendo aos poucos deixada de lado. É como se eu fosse uma borboleta dentro de um casulo pronta para despertar: eu ainda estava dormindo, aquela semana inteira havia sido sonhado em algumas horas, como naquele filme “A Origem”, pensei. Mas não, o listão estava impresso ao meu lado, e meu nome estava lá: GABRIEL NERY DE ALBUQUERQUE REGO. Recebi mensagens de celular. E então, eu acordei, e muito bem humorado. Havia despertado para a realidade com uma certeza absoluta: eu havia passado em Biomedicina, segunda entrada, na UFPE.
     Uma nova atitude: entrei no Orkut para conhecer meus futuros colegas. Criei um post, perguntando o que eles fariam durante os seis meses. Achei que muitos haviam posto segunda entrada por insegurança, como eu. Mas não. Puseram segunda entrada não por insegurança, mas porque tinham que trabalhar. E então, comecei a pensar “caramba, eu nunca na minha vida trabalhei...” quase aconteceu, mas não deixei que esse pensamento me afligisse, não me deixei fazer comparações. Pensei, eles tem os problemas deles, as opções viáveis a eles, e eu tenho as meus. Estava de muito bom humor para me deixar me abater por isso e me sentir um vagabundo preguiçoso.
     Conheci alguns de meus colegas pela net, em especial Cândida Priscylla. Ela é um amor de pessoa, nos conhecemos um dia antes da matrícula, pelo MSN, e logo marcamos de jogar UNO por lá, foi uma coisa até engraçada. Pena que não deu, pois tive que sair cedo para uma ultra-sonografia marcada de dez horas. Só conheci pessoalmente Rita e uma menina que tinha um sorriso lindo, de quem não me lembro o nome (Marina, Mariana, algo assim). Depois eu vi as fotos de Pri, meus futuros colegas foram visitar o CCB (Centro de Ciências de Biológicas, nosso futuro prédio) e o CCS (o de Saúde). Eu estava doido pra conhecer o pessoal pessoalmente, pena que não deu. Queria poder subverter as leis da física e estar em dois lugares ao mesmo tempo, mas ainda não criaram esse mecanismo. Mas um dia, eu estarei lá, naquele centro, naquelas fotos.  

sábado, 12 de fevereiro de 2011

A história da água - Uma paisagem

Afinal, o que de fato define a importância subjetiva de uma paisagem em nossas vidas? Poliana Dantas.

     Afinal, o que é uma paisagem? Por muito tempo, e não sei bem o motivo, o único elemento que estava presente naquilo a que eu chamava paisagem era a água. Embora geograficamente paisagem seja aquilo a que, a qualquer hora e a qualquer lugar, como se não houvesse uma hierarquia de graus de beleza - e ainda que esse conceito seja bastante subjetivo, visto que há a beleza que floresceu naturalmente do seio da terra, e há também aquela que os homens, como seres progressistas que são, verticalizaram em edifícios gigantescos, em imensas obras de arquitetura sem vida, em obras que operários de inchada na mão e mal remuneração ou outrora, e ainda hoje em certos lugares, levando chicotadas nos trabalhos forçados, levantaram. Quando penso nisso, só penso nas imagens de filmes que já vi, como Ben Hur (o trabalho forçado nas galés), ou em relatos da Bíblia, como o cativeiro do povo de Javé nas terras do Egito, mas sou incapaz de perceber a dor da gente que sofre hoje, como se o sofrimento só fosse significativo se ele ajudasse a cimentar as raízes da história, e as dores modernas fossem vistas não como algo significativo por si sós, mas como se os acontecimentos fossem cíclicos, e esses ciclos nos remetem de volta à dor antiga. Os nossos netos acharão as dores contemporâneas, nossas, não deles, tão significativas quanto achamos significativas o sofrimento, o sangue derramado, as degolações, os enforcamentos, os esquartejamentos, e o que partes expostas de corpos humanos em postes representam, no que concerne em seu significado, e aí não interessa se os emissores da mensagem foram eficazes em transmitir o código ou se os receptores foram incapazes de descodificar, tão significativas quanto achamos significativas a história dos hebreus ou a queda de Roma. Eles próprios, no entanto, terão as mesmas dificuldades de achar o sofrimento contemporâneo, deles, não nosso, significativo: e a história se repete. Espero francamente que a mão do destino quebre a seta que indica a direção desse circulo em sentido horário - nossos olhos captam muitas vezes sem discernir o belo do feio, sem a emoção necessária para se dizer: "essa é uma bela paisagem".
     E então, eu via lá em baixo, lá em Piranhas, ou quando olhava para Recife e Olinda no Alto da Sé, eu dizia, "que bela paisagem", mas não sentia nem pressentia que meus sentidos iriam aflorar, como se eu fosse voar. Eu queria me transformar em água, em um solvente puro e doce, capaz de abarcar e de reagir a vários solutos, numa dança de vida e de graciosidade, a dança das ondas, das marés enchendo, dos lagos que aos poucos se formam, como se eu fosse me tornar o palco para o balé dos peixes, para os rituais sociais e os jogos de acasalamento, fruto da seleção sexual necessária para o melhoramento genético.
     Podia percorrer distancias imensas sem ver terra firme num veleiro, onde as paisagens se tornam homogêneas, indiversificáveis, e ainda assim, diria "que belas paisagens". Como transformar em algo único algo tão comum, algo que nossos olhos descobrem já não poderem mais lhes impressionar, lhes cativar? Heráclito de Éfeso, filósofo grego, já dizia que um rio não mais seria o mesmo de um segundo para o outro, que as águas adquiriam novas formas a partir de um momento, que, depois de um momento, já não mais seria o mesmo. E nós também, no decorrer do tempo, no segundo subsequentes, já não mais somos os mesmos. O eu antes de entrar na água sou um, o durante sou outro, e quando sair...
     Quando sair, já não sei o que serei. As águas também já não saberão.
     E o rio que escorre no chão de casa, com a poeira que absorve, e que já sobe pelas paredes, também já não é o mesmo.

(Continua...)




segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A história da água - E o rio corria seu curso...

     E o rio seguia o seu curso por caminhos indeterminados...
     Quiseram sempre os homens, não desde os primordios, mas desde o florescer da consciencia de poder, ter controle sobre tudo; tal consciencia surgiu em fator de algo que não cabe a mim investigar, finjamos então que essa consciencia nasceu como nascem moscas em pedaços de carne podres, por gerãção espontânea; logo, as moscas voarão para apoquentar a própria consciencia dos indivíduos.
     E já não me vem à cabeça aquilo que os homens dominaram primeiramente. Como poderia? Seria um livro de história, escrito por influentes historiadores com base no que também influentes arqueólogos e antropólogos investigam, que me abençoaria com tal conhecimento? Desvendar esse sentimento tão intrínseco e misterioso - e, pelo fato de sermos também humanos e consequentemente também termos a ambição de ter controle, de possuir tudo, incluindo a posse da verdade, do saber como essa consciência foi construída, e de como ela evoluiu, segundo por segundo, movimento por movimento, e se perdermos um movimento, perdemos o fluxo do saber, nos sentimos perdidos - se tornou imprescindível, mesmo que tal conhecimento não vá interferir em nada na vida dos outros, nem contribua significativamente para a ciência movida à capital; trata-se exclusivamente da ciência substancial, aquela pela qual Fausto sofria em sua câmara sombria, em meio aos móveis velhos de seus antepassados, onde estão guardados pergaminhos e alfarrábios que, apesar de serem apóstolos de sua sabedoria, não trazem o conhecimento absoluto, e portanto, relegados à poeira e ao esquecimento.
     Vendo o rio correr pela cerâmica branca da sala, observava o seu curso, e queria, como num jogo de sorte, a apostar todas as minhas fichas e girar a roleta russa. Apostaria no fato de que ele iria seguir para a direita, embora não prestasse atenção nos fatores externos, como a declividade do terreno ou a direção do vento; o importante era saber para onde ele iria, sem um mínimo de esforço e de inteligência.
     Apenas saber!!!
     Mas não, ele não foi para a direita...
     ... e então, percebi que não tinha influencia nenhuma no curso da verdade...

(continua...)

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

A história da água - E havia uma poça d'água no chão...

     As minhas mãos não seguraram direito o botijão, que caiu no chão. Era um velho e grande recipiente d'água que já não sei há quantos anos, por sorte do destino ou por uma probabilidade um tanto quanto favorável, havia retornado ao nosso lar e às minhas mãos, que sempre o punha para lavar com espuma antes de o pôr para o consumo de todos os familiares e visitas que aparecem sem avisar.
     Na verdade, não sei bem a história do velho recipiente, do objeto de plástico ancião, e, se haverá alguma história a lhe ocorrer, essa história se deverá não necessariamente ao destino que humanos de bem senso, ecologicamente corretos, lhe darão, mas ao fato de que ele rachará à luz do sol e se aliviará à chuva da noite, visto que chuva é feita do mesmo material o qual originalmente era sua incumbência guardar. E talvez a história se divida em três, pois foram três as partes que se separaram de um inteiro, mas uma divisão "democrática", não comunista. O destino será ou a reciclagem ou a passividade ante a ação do tempo, até que este lhe consuma em algumas centenas de anos. 
     Quando peguei o botijão nas mãos, não me apercebi das suas características particulares. Não saberia distinguir entre o desse dia ou o do anterior. Um objeto similar a outro só é distinguido através de pequenos arranhões, imperfeições imperceptíveis a olhos desatentos, tamanhos insignificativamente diferentes, e, pela ação do tempo, a variação de brilho, da opacidade do novo com um velho. No caso dos homens, além da fisionomia, há as rugas. Mas saberei, a partir de agora, que aquele, exatamente aquele botijão, não fará mais parte da minha vida, e se vir um similar em minhas mãos outro dia, em minhas alucinações poderei retornar ao dia anterior.
     Não fará parte da minha vida. Mas da minha memória... foi quando o botijão caiu de minhas mãos, e a água se espalhou pelo chão da sala, coberto de cerâmicas brancas. Eu dei um grito de raiva, pois havia cedido àquilo que eu lutava para não ser: agente de um desastre.
     Nunca esquecerei aquele pedaço de plástico suspenso em minha mão, a parte oposta era afiada e pontuda, como uma faca. Foi o pedaço que depois do desastre não largou da minha mão, o que eu, pelo meu instinto de raiva e indignação, num movimento de revolta, pondo a mão em punho cerrado, segurei firme e determinado. E agora, não saberia dizer por que não soltei aquela plástico cortante. Tanta determinação seria estupidamente inútil, não?
     E então olhei para aquela água que escorria pela cerâmica. Eu era senhor de um rio de águas translúcidas, e se alguém com pé sujo pusesse-os em cima, viraria lama!!! Ouvia as vozes ao meu redor, meu avô "nessa família só tem mão furada!", e minha mãe "meu filho, tem que prestar atenção nas coisas, acordar pra vida!"
     E o rio ia seguindo seu rumo... pelas cerâmicas brancas da sala.

(continua...)