Eu passei em Biomedicina. Estou sim muito feliz por isso, mas não falo para ferir aqueles que não passaram, para que eles fiquem tristes nem se achem inúteis ou incompetentes. A hora deles irá chegar, como a minha chegou agora, depois de muita espera e esforço: terminei o ano esgotado, mas ao ver o Listão (e ponho em letras maiúsculas para salientar a importância que uma mera lista tem para muita gente ansiosa), renasci.
Eu custei muito a ver uma luz no fim do túnel durante meus estudos, minha reprovação me era iminente, e eu era um garoto frustrado com os anos anteriores, que no meu ponto de vista atual foram improdutíveis, ou então, produzi menos do que minha capacidade permitia (talvez no futuro, como já em outras vezes me ocorreu, minha visão mude). Mas então: voilà. O Listão saiu. Eu, com tão pouca vontade de não ver meu nome na lista, nem fiquei curioso de olhar o resultado, pois sabia que não iria passar. Estava na casa de minha tia, vendo meu primo fazer malhas impressionantes com o Paint, assistindo a Harry Potter ao lado de minha prima, lendo “Amor em Terra de Chamas”, não me lembro exatamente o que fazia. E então o telefone tocou, e tudo e todos ao meu redor, como eu me lembro hoje, pareceu que havia parado. Foi um recurso cinematográfico que criei em minha mente, inconscientemente (ou não, já que o estou mencionando aqui), para que aquele momento me parecesse mais especial e importante do que ele realmente é ao longo do tempo, e o gostinho da vitória permanecesse em meu paladar, que aroma fosse se desenvolvendo aos poucos, bem lentamente, no fim, interferisse na explosão de todos os meus sentidos.
No telefone, minha mãe chorava, e eu não entendia o porquê, a voz dela estava embaçada, e ela tentava me passar uma mensagem que eu não compreendia. E então, ouvi pessoas por trás do telefone gritando que nem leões famintos, e fiquei com medo de que eles fossem me devorar. Só então percebi que eram gritos de euforia, de torcida. E então, com aquilo tudo, deduzi o que minha mãe me dizia “Meu filho, você passou!!!” e eu sem compreender, fiquei parado, observando minha prima Laís me observando sem me entender do mesmo jeito.
É fundamental que o corpo esteja preparado para receber determinadas informações e se manter em pé, em terra firme, sem se tremer e os músculos não se contraírem. O problema é que nossas reações são trabalhadas em conjunto com neurotransmissores, que por fim, fizeram minhas pernas tremerem. Eu depois não pensei mais nas pernas tremendo, eram pernas tremendo e nada mais. O que poderia haver além de uma perna tremendo? Nada mais?
Depois que desliguei o telefone, logo após ter recebido a notícia, fui até a mesa na sala de minha tia e retomei o livro. Antes, as palavras daquele livro pareciam-me difíceis, ou desconexas. Precisava repetir algumas vezes para entender alguns parágrafos. Não que o livro fosse complicado, apenas tenho dislexia e minha concentração é relativamente baixa. Mas agora, por milagre, eu entendia tudo. Já não estava pensando no fato de que havia passado em biomedicina, estava muito, mas muito concentrado no livro, e li sete páginas sem precisar repetir uma linha sequer.
Algumas semanas depois, fiquei pensando na minha frieza diante desse fato. Meu ano de estudos havia sido recompensado e eu, frio como nunca, lendo um livro, com um aspecto todo calmo. Se alguns de meus futuros colegas de classe me vissem com uma reação daquelas, não me surpreenderia que falassem “você não merece esse curso, não dá o mínimo valor para ele!”, e não os questionaria.
Por que será que eu reagi daquele jeito? Queria ter pulado de alegria como um menino que vi no youtube; queria ter mandado essa notícia para todos (minha família fez isso por mim, e eu, sem explicação, me senti um pouco incomodado com isso), queria estar com vontade de comemorar, mas quando marcaram uma pizzaria para comemorarmos, fui meio a contragosto.
Minhas pernas tremiam. Nada mais? Minha leitura fluiu naturalmente. Acho que essa foi a minha maneira de demonstrar como eu estava satisfeito. Foi assim que eu expressei meu contentamento. Às vezes, eu me sinto tão estranho com minhas reações imprevisíveis, me sinto perdido com o que os outros pensam de mim, pois as vezes não compreendo suas reações, e quase sempre penso em como estou desagradando. Detesto isso. Mas agora, percebo que não sou uma pessoa fria. Apenas sou diferente. Ainda bem que sou assim.
Cíntia e André, minha irmã e seu namorado, insistiram para que eu raspasse a cabeça. Depois de muita insistência, acabei cedendo e rasparam à gilete. Nos dias seguintes, me senti como um verdadeiro tubarão: minha cabeça estava arranhando muito. Eu deixei eles rasparem porque pensei “já que serei pelado no futuro (minha cabeça já demonstrava isso, vou ser que nem meu tio Amilton), melhor experimentar pra já ir acostumando”, e assim foi. Até que o cabelo cresceu rápido, embora ainda está, nesse momento, como se eu tivesse passado uma máquina 2.
Mas aos poucos, minha frieza inicial foi sendo aos poucos deixada de lado. É como se eu fosse uma borboleta dentro de um casulo pronta para despertar: eu ainda estava dormindo, aquela semana inteira havia sido sonhado em algumas horas, como naquele filme “A Origem”, pensei. Mas não, o listão estava impresso ao meu lado, e meu nome estava lá: GABRIEL NERY DE ALBUQUERQUE REGO. Recebi mensagens de celular. E então, eu acordei, e muito bem humorado. Havia despertado para a realidade com uma certeza absoluta: eu havia passado em Biomedicina, segunda entrada, na UFPE.
Uma nova atitude: entrei no Orkut para conhecer meus futuros colegas. Criei um post, perguntando o que eles fariam durante os seis meses. Achei que muitos haviam posto segunda entrada por insegurança, como eu. Mas não. Puseram segunda entrada não por insegurança, mas porque tinham que trabalhar. E então, comecei a pensar “caramba, eu nunca na minha vida trabalhei...” quase aconteceu, mas não deixei que esse pensamento me afligisse, não me deixei fazer comparações. Pensei, eles tem os problemas deles, as opções viáveis a eles, e eu tenho as meus. Estava de muito bom humor para me deixar me abater por isso e me sentir um vagabundo preguiçoso.
Conheci alguns de meus colegas pela net, em especial Cândida Priscylla. Ela é um amor de pessoa, nos conhecemos um dia antes da matrícula, pelo MSN, e logo marcamos de jogar UNO por lá, foi uma coisa até engraçada. Pena que não deu, pois tive que sair cedo para uma ultra-sonografia marcada de dez horas. Só conheci pessoalmente Rita e uma menina que tinha um sorriso lindo, de quem não me lembro o nome (Marina, Mariana, algo assim). Depois eu vi as fotos de Pri, meus futuros colegas foram visitar o CCB (Centro de Ciências de Biológicas, nosso futuro prédio) e o CCS (o de Saúde). Eu estava doido pra conhecer o pessoal pessoalmente, pena que não deu. Queria poder subverter as leis da física e estar em dois lugares ao mesmo tempo, mas ainda não criaram esse mecanismo. Mas um dia, eu estarei lá, naquele centro, naquelas fotos.