As minhas mãos não seguraram direito o botijão, que caiu no chão. Era um velho e grande recipiente d'água que já não sei há quantos anos, por sorte do destino ou por uma probabilidade um tanto quanto favorável, havia retornado ao nosso lar e às minhas mãos, que sempre o punha para lavar com espuma antes de o pôr para o consumo de todos os familiares e visitas que aparecem sem avisar.
Na verdade, não sei bem a história do velho recipiente, do objeto de plástico ancião, e, se haverá alguma história a lhe ocorrer, essa história se deverá não necessariamente ao destino que humanos de bem senso, ecologicamente corretos, lhe darão, mas ao fato de que ele rachará à luz do sol e se aliviará à chuva da noite, visto que chuva é feita do mesmo material o qual originalmente era sua incumbência guardar. E talvez a história se divida em três, pois foram três as partes que se separaram de um inteiro, mas uma divisão "democrática", não comunista. O destino será ou a reciclagem ou a passividade ante a ação do tempo, até que este lhe consuma em algumas centenas de anos.
Quando peguei o botijão nas mãos, não me apercebi das suas características particulares. Não saberia distinguir entre o desse dia ou o do anterior. Um objeto similar a outro só é distinguido através de pequenos arranhões, imperfeições imperceptíveis a olhos desatentos, tamanhos insignificativamente diferentes, e, pela ação do tempo, a variação de brilho, da opacidade do novo com um velho. No caso dos homens, além da fisionomia, há as rugas. Mas saberei, a partir de agora, que aquele, exatamente aquele botijão, não fará mais parte da minha vida, e se vir um similar em minhas mãos outro dia, em minhas alucinações poderei retornar ao dia anterior.
Não fará parte da minha vida. Mas da minha memória... foi quando o botijão caiu de minhas mãos, e a água se espalhou pelo chão da sala, coberto de cerâmicas brancas. Eu dei um grito de raiva, pois havia cedido àquilo que eu lutava para não ser: agente de um desastre.
Nunca esquecerei aquele pedaço de plástico suspenso em minha mão, a parte oposta era afiada e pontuda, como uma faca. Foi o pedaço que depois do desastre não largou da minha mão, o que eu, pelo meu instinto de raiva e indignação, num movimento de revolta, pondo a mão em punho cerrado, segurei firme e determinado. E agora, não saberia dizer por que não soltei aquela plástico cortante. Tanta determinação seria estupidamente inútil, não?
E então olhei para aquela água que escorria pela cerâmica. Eu era senhor de um rio de águas translúcidas, e se alguém com pé sujo pusesse-os em cima, viraria lama!!! Ouvia as vozes ao meu redor, meu avô "nessa família só tem mão furada!", e minha mãe "meu filho, tem que prestar atenção nas coisas, acordar pra vida!"
E o rio ia seguindo seu rumo... pelas cerâmicas brancas da sala.
(continua...)
Não fará parte da minha vida. Mas da minha memória... foi quando o botijão caiu de minhas mãos, e a água se espalhou pelo chão da sala, coberto de cerâmicas brancas. Eu dei um grito de raiva, pois havia cedido àquilo que eu lutava para não ser: agente de um desastre.
Nunca esquecerei aquele pedaço de plástico suspenso em minha mão, a parte oposta era afiada e pontuda, como uma faca. Foi o pedaço que depois do desastre não largou da minha mão, o que eu, pelo meu instinto de raiva e indignação, num movimento de revolta, pondo a mão em punho cerrado, segurei firme e determinado. E agora, não saberia dizer por que não soltei aquela plástico cortante. Tanta determinação seria estupidamente inútil, não?
E então olhei para aquela água que escorria pela cerâmica. Eu era senhor de um rio de águas translúcidas, e se alguém com pé sujo pusesse-os em cima, viraria lama!!! Ouvia as vozes ao meu redor, meu avô "nessa família só tem mão furada!", e minha mãe "meu filho, tem que prestar atenção nas coisas, acordar pra vida!"
E o rio ia seguindo seu rumo... pelas cerâmicas brancas da sala.
(continua...)
Nossa! Voce escreve muito bem... e adorei o conteúdo O.o Parabens...quero ver a continuação ;) Beijos, Raysa (Biom.)
ResponderExcluirEscreve muito bem mesmo! Está ótimo o Blog! :D
ResponderExcluirEita, finalmente essas crônicas "quase ficcionais" resolveram sair da gaveta, hein!! hehe
ResponderExcluirGostei muito do texto _ bom, de certa forma eu já esperava isso, eu percebo uma capacidade muito forte tua em lidar com as palavras e torná-las consonante com a amplitude visual desenhada ao longo da narrativa e com tuas experiências pessoais (o verbo que melhor se encaixaria nesse contexto, acredito eu, seria 'depicted'). O texto acima msm, eu o vejo apresentando um intimismo até leve, por ser construído em cima de uma situação prosaica (who, for God's sake, have never spilled water or another substance on the floor and then recieved a complaint??),e não menos complexo, não só pelo fluxo de consciência presente, carregado de reflexões filosóficas (isso é uma visão mais superficial, o que não difere muito de Clarice), mas principalmente pela flexibilidade quanto aos gêneros textuais (sinto que eu posso lê-lo tanto como uma crônica quanto uma mera história de ficção ou até msm um roteiro...e é isso que me encanta na língua e na arte de escrever e que talvez eu nunca consiga alcançar; essa mutação iminente e atemporal da palavra, da produção artística) pelas pinceladas de masoquismo (não no sentido sexual, tá) cercada de um sentimento de culpa acompanhada pela tentativa de resignação, não só do protgonista,como tb da estrutura do texto em si (talvez essa seja a metáfora da "História da Água"...não seria esta talvez uma extensão da tua personalidade?)_ tomo como exemplo para exemplificar tal afirmação a minúcia com a qual vc descreve os objetos e os sentimentos suspensos. Só queria chamar atenção para duas coisas: primeiro; pra definição de gênero. De certo que esse é o primeiro desse teu novo blog, e já foi essa explosão de gêneros, como eu disse anteriormente; eu não sei o que virá depois _ nem estou na sua mente pra saber. Mas eu queria te dar uma dica: em um texto como esse, em que o gênero mais expoente é a crônica, não seria legal se vc continuasse a tentar transformar o texto (ou talvez deixar subentendido) em milhares gêneros diferentes , como se quisesse deixá-los todos na mesma proporção,isso pode gerar uma posterior fragmentação, eu acho mais interessante trabalhar com as inferências secundárias (um gênero está em evidência e os outros ficam subentendidos, sempre dando margem para outro tipo de reflexão acerca da obra); não que isso que vc fez seja ruim, pelo contrário, essa deve ser sua maneira de expressar seu estilo individual, e se o for, temos então mais um artista que precisa ser conhecido pelo mundo (rsrsrs). A segunda observação é referente a um aspecto mais técnico, o da revisão gramatical. No trecho:"essa história se deverá não necessariamente ao destino que humanos de bem senso", não sei se a expressão intencionada seria 'bom senso', mas se o intuito é seguir a linha de Guimarães Rosa, então tudo bem.
Bom, eu estou anos luz longe de ser uma crítica literária, isso é só uma opinião. Vai fundo, meu amor. Eu sempre soube que vc tinha um grande talento, até superior ao meu. Acabei de me tornar _ mesmo sem vc pedir_ sua leitora assídua. Agora se prepare pras minhas opiniões, viu!!!hahahaha
Um beijo