Afinal, o que de fato define a importância subjetiva de uma paisagem em nossas vidas? Poliana Dantas.
Afinal, o que é uma paisagem? Por muito tempo, e não sei bem o motivo, o único elemento que estava presente naquilo a que eu chamava paisagem era a água. Embora geograficamente paisagem seja aquilo a que, a qualquer hora e a qualquer lugar, como se não houvesse uma hierarquia de graus de beleza - e ainda que esse conceito seja bastante subjetivo, visto que há a beleza que floresceu naturalmente do seio da terra, e há também aquela que os homens, como seres progressistas que são, verticalizaram em edifícios gigantescos, em imensas obras de arquitetura sem vida, em obras que operários de inchada na mão e mal remuneração ou outrora, e ainda hoje em certos lugares, levando chicotadas nos trabalhos forçados, levantaram. Quando penso nisso, só penso nas imagens de filmes que já vi, como Ben Hur (o trabalho forçado nas galés), ou em relatos da Bíblia, como o cativeiro do povo de Javé nas terras do Egito, mas sou incapaz de perceber a dor da gente que sofre hoje, como se o sofrimento só fosse significativo se ele ajudasse a cimentar as raízes da história, e as dores modernas fossem vistas não como algo significativo por si sós, mas como se os acontecimentos fossem cíclicos, e esses ciclos nos remetem de volta à dor antiga. Os nossos netos acharão as dores contemporâneas, nossas, não deles, tão significativas quanto achamos significativas o sofrimento, o sangue derramado, as degolações, os enforcamentos, os esquartejamentos, e o que partes expostas de corpos humanos em postes representam, no que concerne em seu significado, e aí não interessa se os emissores da mensagem foram eficazes em transmitir o código ou se os receptores foram incapazes de descodificar, tão significativas quanto achamos significativas a história dos hebreus ou a queda de Roma. Eles próprios, no entanto, terão as mesmas dificuldades de achar o sofrimento contemporâneo, deles, não nosso, significativo: e a história se repete. Espero francamente que a mão do destino quebre a seta que indica a direção desse circulo em sentido horário - nossos olhos captam muitas vezes sem discernir o belo do feio, sem a emoção necessária para se dizer: "essa é uma bela paisagem".
E então, eu via lá em baixo, lá em Piranhas, ou quando olhava para Recife e Olinda no Alto da Sé, eu dizia, "que bela paisagem", mas não sentia nem pressentia que meus sentidos iriam aflorar, como se eu fosse voar. Eu queria me transformar em água, em um solvente puro e doce, capaz de abarcar e de reagir a vários solutos, numa dança de vida e de graciosidade, a dança das ondas, das marés enchendo, dos lagos que aos poucos se formam, como se eu fosse me tornar o palco para o balé dos peixes, para os rituais sociais e os jogos de acasalamento, fruto da seleção sexual necessária para o melhoramento genético.
Podia percorrer distancias imensas sem ver terra firme num veleiro, onde as paisagens se tornam homogêneas, indiversificáveis, e ainda assim, diria "que belas paisagens". Como transformar em algo único algo tão comum, algo que nossos olhos descobrem já não poderem mais lhes impressionar, lhes cativar? Heráclito de Éfeso, filósofo grego, já dizia que um rio não mais seria o mesmo de um segundo para o outro, que as águas adquiriam novas formas a partir de um momento, que, depois de um momento, já não mais seria o mesmo. E nós também, no decorrer do tempo, no segundo subsequentes, já não mais somos os mesmos. O eu antes de entrar na água sou um, o durante sou outro, e quando sair...
Quando sair, já não sei o que serei. As águas também já não saberão.
E o rio que escorre no chão de casa, com a poeira que absorve, e que já sobe pelas paredes, também já não é o mesmo.
(Continua...)
E então, eu via lá em baixo, lá em Piranhas, ou quando olhava para Recife e Olinda no Alto da Sé, eu dizia, "que bela paisagem", mas não sentia nem pressentia que meus sentidos iriam aflorar, como se eu fosse voar. Eu queria me transformar em água, em um solvente puro e doce, capaz de abarcar e de reagir a vários solutos, numa dança de vida e de graciosidade, a dança das ondas, das marés enchendo, dos lagos que aos poucos se formam, como se eu fosse me tornar o palco para o balé dos peixes, para os rituais sociais e os jogos de acasalamento, fruto da seleção sexual necessária para o melhoramento genético.
Podia percorrer distancias imensas sem ver terra firme num veleiro, onde as paisagens se tornam homogêneas, indiversificáveis, e ainda assim, diria "que belas paisagens". Como transformar em algo único algo tão comum, algo que nossos olhos descobrem já não poderem mais lhes impressionar, lhes cativar? Heráclito de Éfeso, filósofo grego, já dizia que um rio não mais seria o mesmo de um segundo para o outro, que as águas adquiriam novas formas a partir de um momento, que, depois de um momento, já não mais seria o mesmo. E nós também, no decorrer do tempo, no segundo subsequentes, já não mais somos os mesmos. O eu antes de entrar na água sou um, o durante sou outro, e quando sair...
Quando sair, já não sei o que serei. As águas também já não saberão.
E o rio que escorre no chão de casa, com a poeira que absorve, e que já sobe pelas paredes, também já não é o mesmo.
(Continua...)
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