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sábado, 12 de fevereiro de 2011

A história da água - Uma paisagem

Afinal, o que de fato define a importância subjetiva de uma paisagem em nossas vidas? Poliana Dantas.

     Afinal, o que é uma paisagem? Por muito tempo, e não sei bem o motivo, o único elemento que estava presente naquilo a que eu chamava paisagem era a água. Embora geograficamente paisagem seja aquilo a que, a qualquer hora e a qualquer lugar, como se não houvesse uma hierarquia de graus de beleza - e ainda que esse conceito seja bastante subjetivo, visto que há a beleza que floresceu naturalmente do seio da terra, e há também aquela que os homens, como seres progressistas que são, verticalizaram em edifícios gigantescos, em imensas obras de arquitetura sem vida, em obras que operários de inchada na mão e mal remuneração ou outrora, e ainda hoje em certos lugares, levando chicotadas nos trabalhos forçados, levantaram. Quando penso nisso, só penso nas imagens de filmes que já vi, como Ben Hur (o trabalho forçado nas galés), ou em relatos da Bíblia, como o cativeiro do povo de Javé nas terras do Egito, mas sou incapaz de perceber a dor da gente que sofre hoje, como se o sofrimento só fosse significativo se ele ajudasse a cimentar as raízes da história, e as dores modernas fossem vistas não como algo significativo por si sós, mas como se os acontecimentos fossem cíclicos, e esses ciclos nos remetem de volta à dor antiga. Os nossos netos acharão as dores contemporâneas, nossas, não deles, tão significativas quanto achamos significativas o sofrimento, o sangue derramado, as degolações, os enforcamentos, os esquartejamentos, e o que partes expostas de corpos humanos em postes representam, no que concerne em seu significado, e aí não interessa se os emissores da mensagem foram eficazes em transmitir o código ou se os receptores foram incapazes de descodificar, tão significativas quanto achamos significativas a história dos hebreus ou a queda de Roma. Eles próprios, no entanto, terão as mesmas dificuldades de achar o sofrimento contemporâneo, deles, não nosso, significativo: e a história se repete. Espero francamente que a mão do destino quebre a seta que indica a direção desse circulo em sentido horário - nossos olhos captam muitas vezes sem discernir o belo do feio, sem a emoção necessária para se dizer: "essa é uma bela paisagem".
     E então, eu via lá em baixo, lá em Piranhas, ou quando olhava para Recife e Olinda no Alto da Sé, eu dizia, "que bela paisagem", mas não sentia nem pressentia que meus sentidos iriam aflorar, como se eu fosse voar. Eu queria me transformar em água, em um solvente puro e doce, capaz de abarcar e de reagir a vários solutos, numa dança de vida e de graciosidade, a dança das ondas, das marés enchendo, dos lagos que aos poucos se formam, como se eu fosse me tornar o palco para o balé dos peixes, para os rituais sociais e os jogos de acasalamento, fruto da seleção sexual necessária para o melhoramento genético.
     Podia percorrer distancias imensas sem ver terra firme num veleiro, onde as paisagens se tornam homogêneas, indiversificáveis, e ainda assim, diria "que belas paisagens". Como transformar em algo único algo tão comum, algo que nossos olhos descobrem já não poderem mais lhes impressionar, lhes cativar? Heráclito de Éfeso, filósofo grego, já dizia que um rio não mais seria o mesmo de um segundo para o outro, que as águas adquiriam novas formas a partir de um momento, que, depois de um momento, já não mais seria o mesmo. E nós também, no decorrer do tempo, no segundo subsequentes, já não mais somos os mesmos. O eu antes de entrar na água sou um, o durante sou outro, e quando sair...
     Quando sair, já não sei o que serei. As águas também já não saberão.
     E o rio que escorre no chão de casa, com a poeira que absorve, e que já sobe pelas paredes, também já não é o mesmo.

(Continua...)




segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A história da água - E o rio corria seu curso...

     E o rio seguia o seu curso por caminhos indeterminados...
     Quiseram sempre os homens, não desde os primordios, mas desde o florescer da consciencia de poder, ter controle sobre tudo; tal consciencia surgiu em fator de algo que não cabe a mim investigar, finjamos então que essa consciencia nasceu como nascem moscas em pedaços de carne podres, por gerãção espontânea; logo, as moscas voarão para apoquentar a própria consciencia dos indivíduos.
     E já não me vem à cabeça aquilo que os homens dominaram primeiramente. Como poderia? Seria um livro de história, escrito por influentes historiadores com base no que também influentes arqueólogos e antropólogos investigam, que me abençoaria com tal conhecimento? Desvendar esse sentimento tão intrínseco e misterioso - e, pelo fato de sermos também humanos e consequentemente também termos a ambição de ter controle, de possuir tudo, incluindo a posse da verdade, do saber como essa consciência foi construída, e de como ela evoluiu, segundo por segundo, movimento por movimento, e se perdermos um movimento, perdemos o fluxo do saber, nos sentimos perdidos - se tornou imprescindível, mesmo que tal conhecimento não vá interferir em nada na vida dos outros, nem contribua significativamente para a ciência movida à capital; trata-se exclusivamente da ciência substancial, aquela pela qual Fausto sofria em sua câmara sombria, em meio aos móveis velhos de seus antepassados, onde estão guardados pergaminhos e alfarrábios que, apesar de serem apóstolos de sua sabedoria, não trazem o conhecimento absoluto, e portanto, relegados à poeira e ao esquecimento.
     Vendo o rio correr pela cerâmica branca da sala, observava o seu curso, e queria, como num jogo de sorte, a apostar todas as minhas fichas e girar a roleta russa. Apostaria no fato de que ele iria seguir para a direita, embora não prestasse atenção nos fatores externos, como a declividade do terreno ou a direção do vento; o importante era saber para onde ele iria, sem um mínimo de esforço e de inteligência.
     Apenas saber!!!
     Mas não, ele não foi para a direita...
     ... e então, percebi que não tinha influencia nenhuma no curso da verdade...

(continua...)

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

A história da água - E havia uma poça d'água no chão...

     As minhas mãos não seguraram direito o botijão, que caiu no chão. Era um velho e grande recipiente d'água que já não sei há quantos anos, por sorte do destino ou por uma probabilidade um tanto quanto favorável, havia retornado ao nosso lar e às minhas mãos, que sempre o punha para lavar com espuma antes de o pôr para o consumo de todos os familiares e visitas que aparecem sem avisar.
     Na verdade, não sei bem a história do velho recipiente, do objeto de plástico ancião, e, se haverá alguma história a lhe ocorrer, essa história se deverá não necessariamente ao destino que humanos de bem senso, ecologicamente corretos, lhe darão, mas ao fato de que ele rachará à luz do sol e se aliviará à chuva da noite, visto que chuva é feita do mesmo material o qual originalmente era sua incumbência guardar. E talvez a história se divida em três, pois foram três as partes que se separaram de um inteiro, mas uma divisão "democrática", não comunista. O destino será ou a reciclagem ou a passividade ante a ação do tempo, até que este lhe consuma em algumas centenas de anos. 
     Quando peguei o botijão nas mãos, não me apercebi das suas características particulares. Não saberia distinguir entre o desse dia ou o do anterior. Um objeto similar a outro só é distinguido através de pequenos arranhões, imperfeições imperceptíveis a olhos desatentos, tamanhos insignificativamente diferentes, e, pela ação do tempo, a variação de brilho, da opacidade do novo com um velho. No caso dos homens, além da fisionomia, há as rugas. Mas saberei, a partir de agora, que aquele, exatamente aquele botijão, não fará mais parte da minha vida, e se vir um similar em minhas mãos outro dia, em minhas alucinações poderei retornar ao dia anterior.
     Não fará parte da minha vida. Mas da minha memória... foi quando o botijão caiu de minhas mãos, e a água se espalhou pelo chão da sala, coberto de cerâmicas brancas. Eu dei um grito de raiva, pois havia cedido àquilo que eu lutava para não ser: agente de um desastre.
     Nunca esquecerei aquele pedaço de plástico suspenso em minha mão, a parte oposta era afiada e pontuda, como uma faca. Foi o pedaço que depois do desastre não largou da minha mão, o que eu, pelo meu instinto de raiva e indignação, num movimento de revolta, pondo a mão em punho cerrado, segurei firme e determinado. E agora, não saberia dizer por que não soltei aquela plástico cortante. Tanta determinação seria estupidamente inútil, não?
     E então olhei para aquela água que escorria pela cerâmica. Eu era senhor de um rio de águas translúcidas, e se alguém com pé sujo pusesse-os em cima, viraria lama!!! Ouvia as vozes ao meu redor, meu avô "nessa família só tem mão furada!", e minha mãe "meu filho, tem que prestar atenção nas coisas, acordar pra vida!"
     E o rio ia seguindo seu rumo... pelas cerâmicas brancas da sala.

(continua...)