quarta-feira, 27 de abril de 2011

Um novo projeto

    Eu comecei a escrever um segundo blog. Todas as postagens que eu publicar no referido, eu exporei aqui. Explico o motivo: enquanto este blog aqui tem o propósito único de se mostrar textos avulsos, sem um sentido de projeto por trás, o outro é exatamente isso, um projeto. Enfim, leiam o blog e entenderão melhor. Mas não deixarei para trás este aqui não.   
     Grande abraços a todos.

     Link para o blog: http://elegiasdeduino.blogspot.com/

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Subindo a encosta

     
Quando peguei pela primeira vez um livro de Friedrich Nietzsche nas mãos, incentivado a lê-lo por meu querido Sebastião Simão Filho, que já há algum tempo não vejo, não imaginava que iria me encantar de tal maneira pelos desafios que ele propõe. Naquela época eu fazia teatro e enfrentava grande insegurança num lugar onde não se poderia ter medo de se jogar os dados.
     Até eu ler o trecho em que Zaratustra dizia para o equilibrista moribundo depois de um atentado de outro equilibrista que o quisera atropelar na corda bamba: “fizeste do perigo o teu ofício, coisa que não é para se desprezar”. Então percebi que eu estava muito seguro numa das plataformas que ligam um lado e outro da corda bamba, e que teria muita dificuldade para me arriscar a dar um primeiro passo naquela linha tênue em direção ao outro lado. E era isso o que o teatro me exigia, que eu chegasse ao outro lado. Se eu olhasse para baixo, com certeza eu cairia.
     Hoje sei bem que, apesar de conseguir chegar até a metade da corda, caí quando olhei para baixo e vi lá pessoas queridas gritando para mim:
     “Você não vê que andar de um lado a outro da corda bamba não vai te trazer dinheiro, conseqüentemente, não terás conforto, nem mulheres, logo, não terás felicidade?”.
     “Onde você vai viver? Vai ser sustentado pelos pais para sempre?”
     Sucumbi então a esse tipo de terror psicológico. Lembrei que fazer teatro não era de graça. Percebi que a maioria dos grandes artistas tinham morrido sem serem reconhecidos em vida, pobres conseqüentemente;  suas viúvas, porém lograram conforto e riquezas com o sucesso posterior de seus maridos. Mas essas glórias póstumas não me consolavam, pois eu ainda não tinha feito nada que fosse grande e merecedor da posteridade. Hoje, vejo que ser artista não é estar no palco, eu também estive lá. Ser artista é atravessar a linha sem olhar para baixo, ou cair encarando o horizonte. Eu caí imaginando o abismo negro e profundo embaixo de meus pés.
     Nietzsche continuava pregando que devemos explorar nossos limites. Isso consiste em conseguir liberar nosso espírito criador, um espírito que não se detém pela inibição, pela timidez, pelo medo, pelas palavras doutrinárias de seitas religiosas ou de indivíduos singulares. O problema é que eu via em Nietzsche palavras doutrinárias, e fiquei com a sensação de desconforto de, ao acabar de ler suas palavras, não conseguir abandoná-las, não as considerar simplesmente uma inspiração para o caminho que eu devia procurar sozinho, eu, meus pensamentos e minha ousadia, que eu deveria buscar.
     Agora já faz três anos que eu não faço teatro, não convivo mais com a busca pela criação. Nesses últimos anos, com os estudos para o vestibular, me acostumei com a criação dos outros. O que estudamos em história supostamente são as histórias mais relevantes em um nível mais amplo das histórias individuais, mas biografias ocasionais expunham o quão criativos, ousados e dignos de figurar na memória de todos tais biografados eram; por trás da física, da química, da biologia, há o raciocínio criativo de grandes pesquisadores que possibilitaram tais descobertas.
     Por muito tempo me resignei com esses saberes alheios, admiráveis, mas não meus. Aos poucos fui me esquecendo das palavras de Nietzsche, mas não procurei meu próprio caminho, minha própria criação; nunca abandonei o conforto. Estudei para ganhar dinheiro. E não ousei. Não que eu não seja capaz de ousar na faculdade: posso me aventurar nas pesquisas, não ter medos de encarar as possibilidades que me surgem.
     Mas um dia acordei com as lembranças de um outro texto de Nietzsche, um poema de duas linhas inserido em “A Gaia Ciência”:

                                   A encosta
      “Como é que se deve subir a encosta?”      
     Simplesmente sobe e não penses nisso!

     E então eu entendi porque olhei para baixo: eu pensara demais. Ser artista, pois, era agir sem pensar, transcender ao eu e encontrar o si mesmo. Vi, então, que apesar de ter caído da corda bamba, nada poderia me impedir de subir novamente no picadeiro. A busca pelo meu caminho próprio deveria continuar. Eu deveria aprender a ousar, a experimentar, com meu corpo, com meus gestos, aquilo que poderia, pelo meu medo, quebrar a minha coluna.
     Comecei a praticar a patinação. Sinto que pela primeira vez estou realmente ousando comigo mesmo. Não tenho medo de cair, e estou sempre olhando para o horizonte. O que procuro já não é a segurança, é justamento o contrário, o risco e a instabilidade. Não imaginas como ela me faz bem.
     Já estou em cima da plataforma novamente. Estou pronto para dar um novo primeiro passo.
      

domingo, 17 de abril de 2011

Sobre algumas futuras postagens.

O título desse blog é ciência e filosofia, e até agora, não escrevi nada relacionado a ciência, tampouco à filosofia: alguns posts mencionam filósofos e algumas idéias filosóficas, mas nada que se possa dizer ser realmente uma análise. Acontece que pus esse título acreditando que realmente iria abordar esses temas, mas logo senti que não tinho bases sólidas para isso. Pretensão de minha parte, eu sei.
     Irei, porém, fazer o seguinte: vou ler livros de história da filosofia, ler livros de outros filósofos além de meu grande mestre Nietzsche, e o que me encantar irei comentando aqui; além disso, irei lendo as matérias da Scientific American, Ciência Hoje e outras revistas científicas, e o que eu achar interessante posto tentarei fazer uma analise por cima, mas não tentarei ser o mais científico e pragmático possível. Pelo contrário, pretendo fazer comentários que possam interagir com outras áreas, particularmente as ciências sociais.
     Então é isso. Continuarei aos poucos o meu texto literário “Quando Chegamos em Casa” sem pressa e o escreverei quando tiver vontade. Ele, apesar de querer muito ser concluído, não é entretanto minha prioridade no momento.
     Até a próxima postagem. 

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Quando chegamos em casa - Quando a sorte escapa pelas mãos

O que segue abaixo é uma pequena obra literária. Será dividida em quantas partes forem necessárias. Escreverei aos poucos, bem à maneiras dos folhetins do século XIX. Sua estrutura, apesar de poder parecer estranha, de certa maneira é um exercício de montagem cinematográfica, onde se tenta ignorar repetições e dinamizar as ações tanto em âmbito espacial quanto temporal. Deixando as explicações de lado, vamos ao texto.

QUANDO CHEGAMOS EM CASA

Capítulo 1
Quando a sorte escapa pelas mãos

     A casa onde eu morei era uma tapera de paredes mal caiadas em que não era necessária grande atenção para perceber as imperfeições do acabamento de um pedreiro que se chamava meu pai,
     Buracos irregulares nos tijolos, aproveitados de metralhas de construções nos arredores, as junções mal cimentadas,
     — E não tem dinheiro pra comprar seus próprios tijolos, comentavam nossos vizinhos, ao invés de juntar, vai comprar cachaça no boteco mais próximo,
     — E não tem dinheiro para comprar o próprio cimento, continuavam,
     E lá estava nosso pai, num boteco na cidade próxima,
     O caminho para a cidade era um caminho incerto, cheio de pedras, seco como um inferno,
     — O tempo e o sacrifício que ele poderia dedicar cuidando dos filhos ele gasta vindo pra cá, os vizinhos se tornavam cada vez mais eloqüentes em suas análises sobre o meu pai,
     Duas horas numa carroça velha, e a roda ainda quebrou um dia, mas bêbado persistente que era, foi o resto do caminho a pé mesmo, que lá tinha água à sua espera,
     E entortando o décimo primeiro copo, caiu no chão, pois água é o que faltava naquelas redondezas, mas seu derivado alcoólico com dois contos se conseguia fácil,
     E eu entortava as ultimas gotas que havia num velho recipiente de vidro que guardávamos com todo o cuidado, pois o dinheiro que perderíamos na reposição se aquele quebrasse,
     Meu pai, ao chegar em casa, se cortou com cacos de vidro espatifados no chão,
     As mãos do meu irmão eram muito pequenas para segurar com segurança aquele velho recipiente,
     — Soube que o menino seu filho levou uma surra das boas ontem, por causa de um copo quebrado, faziam chacota nossos vizinhos,
     Nosso pai entortava outro copo durante a chacota, sua vontade de beber era maior que a dor que ele sentia na sola dos pés cortados,
     Peguei uma camisa velha minha, embora fosse uma de minhas únicas, cortei com um dos cacos quebrados que não foram melados de sangue uns pedaços de tecido,
     — Deixa como está, disse-me meu pai recusando a estirar sua perna, não precisa remendar, vai sarar sozinho, como sempre aconteceu até hoje,
     — Perdi uma camisa à toa, reclamei a meu Deus durante minhas orações noturnas, na esperança de que ele pudesse me comprar outra,
     Cinco camisas, duas calças e um par de sapatos, todos com rasgos, eis minha coleção de vestimentas despojadas e modernas,
     — Lá vai o menino com seus trapos, riu alguém na cidade ao me ver,
     — Sabe onde está meu pai, perguntei a esse alguém cujo nome insignificante,
     Entrei com muita raiva nesse dia no estabelecimento denominado bar, parti pra cima de meu pai lhe desferindo um soco,
     — Que coisa feia, Geraldo, apanhando do próprio filho, riu um dos bebuns ao lado, enquanto os outros em coro gritavam como os macacos peludos que eram,
     — Vai revidar não, Geraldo, punham em sua cabeça frágil idéias toscas,
     Meu pai olhou nos meus olhos, percebia nos seus sinais de tristeza, sentimentos de humilhação, agonia, o que mais existisse de sentimentos que causam comoção em quem quer que seja,
     Suas mãos foram muito rápidas em seu golpe, ele guardava o pedaço de vidro que lhe havia cortado os pés há duas semanas de maneira providencial em sua mão direita,
     Não pude entrever, no entanto, a raiva discreta nem o impulso da vingança contidos em seus olhos, como eu sou cego,
     A minha sorte estava lançada, eu naquele momento, deitado no chão com muita dor sentido o sangue escorrendo em minha barriga, já não poderia saber o que seria de mim,
    
(Fim do primeiro capítulo)
    
        

sábado, 9 de abril de 2011

Contra o luto da mídia

     

     Não há paredes suficientes para fazer ecoar os gritos de mães que tomaram em suas mãos o sangue morto de seus rebentos; e mesmo que as houvesse, quais ouvidos seriam capazes de tais gritos compreender? Quais seriam capazes de traduzir em frases bem estruturadas, em argumentação lógica, um estado de espírito coletivo onde a lógica parece não ter mãos suficientes que a possam sustentar? Mas ainda assim, diante de tanto sangue e sofrimento, é preciso que se encontre uma base lógica para o caso, uma base guiada pela falta de descriminação e julgamentos prévios para com o assassino Wellington Menezes de Oliveira. Só assim se evita o poder negativo da mídia sensacionalista, que infelizmente hão de explorar essa história como alguém que para fazer suco de laranja a espreme com muita força até tirar a ultima gota, e para deixá-lo ainda mais doce, põe bastante adoçante, que é para não engordar. O efeito, por ironia, será o oposto, já que muita gente “indignada”, ao invés de ir para as ruas fazer seu papel social, ficarão presas às “notícias urgentes” de repórteres como Datena por muitas semanas, se esquecendo de que o planeta, em escala humana, é imenso, mas ao mesmo tempo, pequeno demais para que os problemas internacionais não nos afetem; essas pessoas vão ficar morbidamente obesas: adoçante só é para quem é diabético!!!

     Pois o fato é que esse caso deve ser explorado sob as luzes da sociologia e da psicologia.
     É um fato triste que, depois de 21 anos desde que se houve notícias do primeiro incidente dessa natureza, venha a chegar numa escola brasileira barbárie semelhante. O problema é que esse incidente cruel é uma peça de dominó que empurrará a procedente num jogo de colunas, é uma reação em cadeia que se tem início e, se tem fim, nunca saberemos qual será a ultima pedra branca a cair. Uma pedra, porém, só cai se é empurrada por outra. A questão que proponho: quais são os mecanismos que fazem com que a peça seguinte caia?
     Tem o ato em si. O assassino provavelmente sabia que chamaria atenção da mídia nacional e internacional, a não ser que o crime tenha sido passional, o que não foi o caso. Aí é que está o problema: de fato, a mídia ficou impressionada, e como ela age de acordo com as reações emocionais do público, começam a chamar o assassino de monstro, de anomalia mórbida, de corpo sem dignidade, para exaltar ainda mais a reação de ódio.
     Tem também a questão da comoção internacional, de um prolongado luto, que pode durar muito tempo, tendo às vezes até memoriais e passeatas anuais no aniversário das tragédias.
     Ninguém gosta de ser esquecido. Com exceção de poucas pessoas, todo mundo deseja ser eterno de alguma maneira, seja realizando uma obra artística ou humanitária significativa, seja construindo pilares para o futuro. Mas também, há a maneira mais cruel, e muito mais imediata, de ficar na memória das pessoas.
     Agora, imaginemos a mente de uma pessoa que sempre se sentiu um invisível para o mundo, e não só para o mundo, mas para todos os seus próximos. Uma pessoa que não enxergava diante de si, mesmo que as houvesse, oportunidades de crescer de alguma forma. A maioria desses casos, se não todos, foram motivados pelo bullying que os assassinos sofreram. Isso não é novidade, e é amplamente explicitado pela mídia. Diante do bulliying, eles se sentem oprimidos, se sentem passivos. E já começam em suas cabeças a sonhar com a atividade, em ser capaz de anular a atividade dos seus opressores. Tem gente que consegue criar certos mecanismos de defesa, como deixar a sua voz mais alta, a fim de ser escutado por todos, mas de uma forma não natural; outros conseguem levantar o olhar antes cabisbaixo e olhar olho a olho, sem desviar de seus possíveis interlocutores. Não sei se aqui se adéqua 100%, mas podemos até dizer que é um caso de seleção natural Darwiniana, em que os que sobrevivem se tornam mais fortes, e os mais fracos perecem.
     Perecem ao cansaço, à passividade, ao olhar que perde sua capacidade de se surpreender. Ficam sozinhos com seus próprios pensamentos, que vão ficando cada vez mais sombrios e egocêntricos, ou seja, a noção de coletivo e comunidade vão ficando distantes no que concerne ao seu desenvolvimento como fruto de união. Imagens de pessoas de mãos dadas vão ficando sem sentido para eles – e seus objetivos se concentram em como cortar com uma tesoura as mãos que unem as pessoas.
     Uma das imagens mais significativas do filme sueco “Deixe Ela Entrar” é aquela em que o garotinho Oskar, de 10 anos de idade, sozinho em seu quintal, começa perfurar com uma faca afiada o tronco de uma árvore e dizer: “Grita, grita!” Ele sofria sérios bullyings físicos na escola, e guardava seu sofrimento para si, até conhecer a vampirinha que se torna sua paixão e confidente. E aí está outro problema: ninguém gosta de ouvir as lamentações dos outros, e se a escutam, logo fala para o lamentador que ele deve tentar lidar sozinhos com seus problemas, pois cada um tem os seus próprios. E isso salienta ainda mais seu isolamento.
     Então, uma hora, eles explodem. Resolvem ter o poder uma única vez. Resolvem entrar para a história, mesmo que seus nomes fiquem tachados eternamente como monstros e desumanos. O que importa é que logo em seguida ninguém o esqueceria, todos iriam querer saber quem ele era. Ele ficaria para a história, para o bem ou para o mal. Só assim sua voz seria escutada.
     É um efeito de espelho: o próximo assassino verá a comoção mundial, e irá querer imitá-los (não é a toa que todos se suicidam).
     Mas, se todos esses casos são efeitos dominó ou de espelho, porque o primeiro desses casos aconteceu, se não havia precedentes? Minha opinião: os EUA são um país com a mentalidade armamentista arraigada, neurótica e com medo. A soma de tudo isso faz com que armas sejam de fácil acesso. Esse primeiro caso é fruto da paixão por armas dos EUA. Talvez eu esteja sendo preconceituoso, e se estou, gostaria de ouvir argumentos contra essa afirmação.
     Enfim, espero que esse texto sirva como uma pequena reflexão. Só depende de cada um de vocês se vão dar corda para a mídia sensacionalista. Ela é a maior responsável por tudo isso.



              

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Crítica Musical - O Lago dos Cisnes

O LAGO DOS CISNES

     Minha amiga Poliana Dantas, depois de ler minha resenha sobre o Concerto para Violino e Orquestra de Tchaikovsky, me pediu para fazer uma outra sobre O Lago dos Cisnes do mesmo compositor, desejosa de que minha análise pudesse lhe auxiliar na crítica da película Cisne Negro, e cá estou eu tentando esboçar essas linhas. Não sinto que minha análise vá ser algo relevante para a historiografia musical tampouco para quem quer que seja, e nem é minha pretensão que o seja, e desde já afirmo que aqui postarei minhas sensações particulares, ocasionalmente farei comparações com a trilha sonora de Cisne Negro, comentando o uso de trechos de O Lago dos Cisnes com sua partitura original, assim com os arranjos de determinados trechos da obra pelo compositor cinematográfico Clint Mansell, e inserirei, talvez de maneira muito pouco analítica, informações históricas a respeito do balé que possa ter influenciado o que ela é hoje como partitura.
     Tchaikovsky, como afirmei em minha análise sobre a obra anteriormente criticada, não é um compositor muito original. Sua orquestração muitas vezes se repete em estilo, a interferência dos instrumentos de sopro tanto como naipe principal como baixo, ou seja participações sutis de acompanhamento ou efetivas nos movimentos lentos, ou seja, tanto como naipe principal ou de baixos, a explosão da orquestra que geralmente é uma explosão que expressa um sentimento de festa, bem diferentemente das explosões das orquestras de Wagner, Bruckner e Mahler: o que o difere dos compositores mencionados no que concerne a esses momentos de maior exaltação é justamente a orquestração e o motivo pelos quais se desenvolvem: as do primeiro ressaltam momentos grotescos das ações grotescas dos personagens grotescos de suas óperas, e os outros dois expressam o sofrimento, da forma mais latente e gritante (Bruckner e Mahler são meus compositores românticos prediletos, e depois farei posts sobre suas obras); quanto à orquestração, Tchaikovsky é extremamente bem comportado  e usa em abundancia todos os intervalos justos, de 3ª e de 6ª, ou seja, todos os intervalos consonantes, perfeitos e imperfeitos, tanto na série como na harmonia entre os naipes, e em cada naipe, entre cada instrumento, o que difere dos outros três, que não buscavam de todo a estranheza da harmonia dissonante, mas a utilizava para ressaltar os sentimentos (os Escolásticos – ou foram os Patrísticos? –  já afirmavam que o belo só existe se em algo bonito existem detalhes feios, alcunhado por mim de “Princípio da Bela e a Fera”, e concordo com eles plenamente).
     Quebrar as amarras, essa ditadura do consonantismo e do tonalismo pregada desde quanto Pitágoras descobriu as relações harmônicas numa lira grega, foi uma das grandes revoluções da música, um grande feito, mas ainda assim, é impossível ignorar o brilhantismo de séculos e séculos de música consonante e tonal, e é essa música que, feliz e infelizmente, dá lucro nesse ramo (pelo menos algo dá lucro nesse ramo!!!).
     E é no passado que Tchaikovsky, assim como Chopin, tinha sua inspiração, sua maneira de conceber a música, com olhos em Mozart e Haydn, aquele sentido clássico em busca da harmonia perfeita, do equilíbrio e da claridade. Mas ao contrário dos clássicos, Tchaikovsky não procurava racionalizar demais sua obra, ele transbordava paixão, era espontâneo, as melodias lhe brotavam na mente com naturalidade. Claro, depois do mecenato de Nadedja Von Meck, quando ele encontrou espaço para se dedicar somente à música, sua inspiração era sua companheira mais íntima.
     Era a época do surgimento das escolas nacionais, onde os autores iam em busca de inspiração. Buscavam-na no folclore típico de seus países. Cesar Franck, Chabrier e Fauré na França, na Espanha e na Inglaterra, a redescoberta desse seu folclore se deu no modernismo, anos depois, embora tiveram base em Debussy e os franceses; agora iremos para a música nacional russa.
      Foram cinco jovens autodidatas, amadores e aventureiros, quem deram asas à música nacional russa: Mily Balakirev, César Cui, Modest Mussorgsky, Rimsky-Korsakov e Alexander Borodin. Eles trabalham sem interrupção e levaram a revolução aos meios musicais mais conservadores, voltados para a música ocidental. Se não fosse a simpatia do célebre crítico musical russo da época, Vladimir Stassov, que os batizam de Grupo dos Cinco, o grupo seria talvez ignorado na época. Essa época foi de uma vivacidade impar, eu estive lá!!!
     Mas Tchaikovsky, apesar de admirar esses músicos, tinha sua estética mais voltada para o ocidental. Não que ele não tivesse amor pela música russa, ele mesmo buscou inspiração no folclore de seu país, e em o Lago dos Cisnes, podemos perceber de leve em alguns momentos essa inspiração. De qualquer maneira, ele se tornou uma espécie de porta voz da música russa no mundo, por turnês que fez na França e nos Estados Unidos, e hoje, é reconhecido na Rússia como uma autêntica alma russa, o grande músico russo. No estrangeiro, ele não é nada mais que um romântico tardio, e o interesse pelo Grupo dos Cinco, especialmente por Rimsky-Korsakov e Mussorgsky, é muito maior, pelas ousadias e inconformismo que suas obras trazem. Não deixa de ser uma coisa triste esse fato, pois, assim como no Japão, onde os japoneses vêem nesses ramos musicais e teatrais o que se exportar não a musica tradicional de seu país, seus instrumentos tão exóticos, seus bugaku, gagaku e nô, um país onde até o kabuki está se ocidentalizando cada vez mais, eles exportam música japonesa ocidentalizada, sem nenhuma referencia ao seu país. Tchaikovsky, é, assim, intitulado como a mais pura personificação da alma russa.
     Mas isso não é exatamente uma crítica minha contra Tchaikovsky, apenas uma observação. Eu o admiro muito. Sinto muito prazer em ouvir suas sinfonias. E é isso que ele é, um grande sinfonista.
     Os balés eram compostos geralmente por compositores menores que se dedicavam exclusivamente a isso: escrever música para balés. Tchaikovsky, ao escrever o Lago dos Cisnes, se tornou um dos primeiros sinfonistas a escrever balé.
     O libreto de Vladimir Begtichev e Vasily Geltzer conta a história da princesa que é tranformada em cisne pelo cruel Mago Rothbart, e é dividido em quatro atos, que copio sem piedade da Wikipédia:

Ato I
No castelo realiza-se com toda a pompa o aniversário do príncipe Siegfried. A rainha oferece ao filho como presente uma balestra e pede-lhe que, no dia seguinte, escolha uma esposa entre as convidadas da festa. Quando os convidados saem do castelo, um grupo de cisnes-brancos passa perto do local. Enfeitiçado pela beleza das aves, o príncipe decide caçá-las.
Ato II
lago do bosque e as suas margens pertencem ao reino do mago Rothbart, que domina a princesa Odette e todo o seu séquito sob a forma de uma ave de rapina. Rothbart transformou Odette e as suas donzelas em cisnes, e só à noite lhes permite recuperarem a aparência humana. A princesa só poderá ser libertada por um homem que ame apenas ela. Siegfried louco de paixão pela princesa das cisnes, jura que será ele a quebrar o feitiço do mago.
Ato III
Na corte da Rainha aparece um nobre cavalheiro e sua filha. O principe julga reconhecer que a filha do nobre cavalheiro Odile é a sua amada Odette, mas na realidade por baixo das figuras do nobre cavalheiro e a sua filha escondem-se o mago Rothbart e a feiticeira Odile. A dança com o cisne negro decide a sorte do principe e da sua amada Odette: enfeitiçado por Odile, Siegfried proclama que escolheu Odile como sua bela futura esposa, quebrando assim o juramento feito a Odette.
Ato IV
Os cisnes brancos tentam em vão consolar a sua princesa. Mas Odette destroçada pela decisão do príncipe, aceita a sua má sorte. Nesse momento surge o príncipe Siegfried que explica a donzela como o mago Rothbart e a feiticeira Odile o enganaram. Odette perdoa o príncipe e os dois renovam os votos de amor um pelo o outro. O mago Rothbart, impotente contra esse amor, decide se vingar dos dois e então inunda as margens do lago, Odette e as suas donzelas logo se transformam em cisnes novamente e o príncipe Siegfried tomado pelo desespero se afoga nas profundas e turbulentas águas do lago dos cisnes. O príncipe não sobrevive. É a morte de amor.

     Claro, a coreografia sempre muda de uma montagem a outra, embora sejam mantidos os esquemas de Pas de deux, de trois, etc; o enredo por vezes é levemente alterado. De qualquer maneira, quando ouvimos falar de balé, imediatamente nos vêm à cabeça esse O Lago dos Cisnes. De fato, esse é, e não consigo entender o motivo, o balé mais popular de todos os tempos. Existem outros muito mais maravilhosos, como o Romeu e Julieta de Prokofiev, ou O Mandarim Miraculoso de Bartók, o número de montagens dessa peça é infinitamente maior que as mensionadas, no entanto.
     O filme Cisne Negro abre apropriadamente com a Abertura do Lago dos Cisnes, onde Rothbart transforma Odile em Cisne Branco numa coreografia à la Bolshoi, e termina exatamente com o encerramento do Balé, com a morte de Odile e, secundariamente, de Nina também.
     A música de Clint Mansell para o filme se resume a arranjos da obra de Tchaikovsky, algumas delas tocadas de maneira diegética, como nas cenas de ensaio, tanto para piano como para piano e violino: falo da música da terceira cena do balé, um Allegro moderato divertidozinho, e do Pas de Deux entre Odile e o Principe Siegfried, em movimento Andante. Outras músicas do filme são mais discretas, tiradas de notas relativamente soltas na obra original, que não chamam muita a atenção do ouvinte, e que Clint conseguiu dinamizar mais no andamento, suprimindo um tom mágico e pondo em um tom mais tenso e misterioso, como na cena em que Nina vê seu reflexo negro num trem, logo no início do filme (é a música em que o Principe jura amor eterno à Odette).
     O desenvolvimento desse ato, o dois, é muito bom, em que sentimos o clima de uma falsa esperança, de uma alegria que é só passageira, uma alegria repleta de cinismo da parte do compositor. É a música que expressa a arte de enganar o próximo: ele nos engana com a promessa da felicidade. Esse ato dois é pleno da mais cínica alegria, onde há também agilidade e dinamismo, além de divertimentos musicais, que expressa a pureza do amor do príncipe e de Odette. Já escutamos aqui, de leve, no baixo da orquestra, o jogo que permeará o terceiro ato, o de Odile.
     O terceiro ato é o mais interessante: Siegfried declara seu amor por Odile, quebrando a promessa feita a Odette. A música desse ato é a mais sombria da obra, mas isso não significa que ela não seja leve. De qualquer maneira, expressa o sentimento de estarmos entrando num ambiente perigoso à nossa própria saúde. Aqui, Odile, o Cisne Negro, dá as caras, e, pelo fato de sabermos como a história acaba, é sempre um prazer ver a arte da enganação. Sem Odile, o Lago dos Cisnes seria das histórias mais insossas que já foram criadas.
    
     Enfim, não vou prolongar esse post, já estou exausto de escrevê-lo, e, por mais que sinta que falta ainda muita coisa, muita informação, na tentativa de por essas informações poria um tanto mais de texto prolixo e entediante. Deixo que vocês escutem a peça e completem as lacunas que quiserem.

     E Odette (Nina) pula do penhasco e morre de amor.


   
    
       
    

sábado, 19 de março de 2011

Crítica musical - Concerto de Tchaikovsky para Violino e Orquestra


    

     Parei hoje para escutar um CD, e o escolhido foi uma gravação da violinista e pianista alemã Julia Fischer com a Orquestra Nacional Russa, sob regência de Yakov Kreizberg, selo PentaTone Classics.
     Trata-se do Concerto para Violino e Orquestra de Tchaikovsky. Não há o que se falar desse concerto. Desde criança que eu o escuto ardentemente, e durante vários anos, já adquiri várias versões dessa grande e apaixonada obra, muitas delas de excelente qualidade.
   Pois bem, falemos do concerto. Esse concerto tem um tema inesquecível em seu primeiro movimento, que é desenvolvido primeiramente pelo violino depois de uma breve introdução do mesmo. A maneira como a orquestra acompanha esse tema, com pequenos dedilhados e acordes conjuntos do naipe de cordas dá uma leveza muito bonita. Esse mesmo tema é repetido, e a participação da orquestra aumenta aos poucos: durante esse primeiro movimento, há uma hora em que ela repete o movimento, agora de maneira mais brusca. O tema vai sendo desenvolvolvido. Tem alguns acordes de estrema beleza nas notas agudas do violino, cuja emoção só é possível graças à intérprete - escutei a gravação de Hilary Hahn, e não senti emoção alguma, tinha alguma coisa fria nela, que não interagia bem com a orquestra; Hilary se dá melhor com música contemporânea, o concerto de Schoenberg está fantástico, mas o romantismo não é a sua área -, e Julia Fischer tem um domínio emocional e técnico sensacional. O desenvolvimento das melodias vai ficando claramente paganinianas (Nicollo Paganini foi um virtuose do violino, talvez o maior, e escreveu os 24 Caprichos para violino solo, as obras mais difíceis do repertório violinístico para qualquer violinista, e Julia, em outra gravação, dá um show nesses Caprichos), com aqueles arpégios tão característicos, que lembram o desenvolvimento do concerto para violino no.1 de Paganini. Apesar de não ser muito original, esse desenvolvimento introduz bem a parte final do movimento, que é fechado da maneira que Tchaikivsky gosta: a orquestra muito ativa, rápida, desenvovendo pequenas melodias em vários tons diferentes, em repetições breves que dão enfase e tensão ao trecho procedente. E irrompe numa quebra de melodia onde o violino ataca novamente com uma grande energia. E a orquestra surge novamente, criando uma espécie de fogos de artifício com seus naipes.
     O segundo movimento é bem curto e lento, e não me atrai mais como antigamente. Mas a orquestra e a virtuose dão seu melhor. Começa com temas leves, orquestração predominante de instrumentos de sopro, como flauta, oboé e clarinete, muito parecido com a abertura de alguns trechos de O Lago dos Cisnes, em algumas danças e principalmente no Romeu e Julieta, compostas pelo próprio Tchaikovsky. O desenvolvimento se dá como uma canção suave e delicada (não é à toa que se chama Canzonetta), bonita sim, mas que não sei porque o motivo dela não me animar muito. Apenas acho muito monótono. Talvez esteja saturado da orquestração de sopros. Quando o naipe de cordas dá suas aparições sutis, já me entusiasmo mais. Parece que ele quer nos introduzir a um mundo místico e cheio de magia (e funciona bem em O Lago dos Cisnes, mas aqui tudo me parece sem propósito).
     O terceiro movimento é animado e tem trechos que dariam muito bem no filme Fantasia de Walt Disney. Tem uma marcha lenta mas não menos divertida antes do desenvolvimento da melodia secundária. O tema da marcha vai ficando mais enégico e vira uma dança, depois o naipe de sopros o desenvolve a partir dos seis minutos. Essas marchas também são bem características de Tchaikovsky. E a obra vai se fechando com o festejar da orquestra e do violino.
     Pelo que vocês viram, não acho Tchai muito original, mas ainda assim, esse primeiro movimento é arrebatador, e Julia Fischer me emociona a cada gravação que eu a escuto (estou apaixonado por ela).
     Tchaikovsky é um romantico tardio, quando o Modernismo já estava dando as caras, onde estéticas novas, harmonias mais exóticas estavam dando as caras, Tchai continuava com os acordes consonantes tradicionais, o tonalismo. Mas considero um erro grave subestimá-lo. Ele era um grande melodista, e isso não é algo para se ignorar.

     Se quiserem adquirir o CD, podem comprá-lo na Amazon (nunca comprem música erudita pela Livraria Cultura!!!!), ou então baixá-lo aqui: http://orchestralworks.blogspot.com/2009/10/julia-fischer-tchaikovsky-violin.html 

     É isso, espero que gostem.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Meus patins - Andando no Parque da Jaqueira

     Ontem eu fui ao Parque da Jaqueira usar meu novo par de patins decentemente, pela primeira vez. Digo isso pois anteontem eu fui andar nas ruas de minha praça, e o que mais via eram carros e ônibus, indo e vindo, e como eu ainda não estava com controle absoluto, o risco de um acidente era iminente. Eu por umas quatro vezes me sentei no chão para tentar me acalmar. Algumas pessoas olhavam para mim ou com cara de admiração, pois é incomum na vila em que moro ver pessoas andando de patins; outras, me olhavam com um riso sarcástico no rosto, riam provavelmente da minha desenvoltura, falta de postura e equilíbrio. Tinha horas que não conseguia mover meus pés direito. E então, ali nas ruas de minha vila mesmo, disse para mim: "não, irei ou para o Parque da Jaqueira ou a Orla de Olinda".
     Então ontem eu fui ao Parque da Jaqueira. Minha tia mora lá por perto, e eu poderia dormir e de manhã cedo no dia seguinte, eu poderia retornar lá e praticar por mais algumas horas. Mas não, ao invés de estar lá agora, estou aqui a escrever esse blog. Já faz mais de mês que não posto nada, embora esteja com alguns posts em rascunho, mas aos poucos, preciso continuar.
     Nunca havia pisado naquele parque, mas logo me apaixonei. Tem uma pista não retilínia de caminhada que cobre um quilômetro. É muita gente andando naquela pista. É uma coisa bonita de se ver. Tem área com equipamentos de ginásticas, rampas lisas, que não sei bem pra que é, mas deve ser para patins e skate, não tenho certeza, pois ficava bem distante da pista de patins. Sim, havia uma pista para patins, bicicleta e skate, mas isso não impedia que os caminhantes hora ou outra invadissem essa pista. Não podemos invadir a deles, mas eles podem invadir a nossa na boa. Não estou fazendo nenhuma crítica, e não vejo problemas nessa invasão. Acidentes podem de fato acontecer, mas sabe como eles são: apenas acidentes, e eles acontecem!!!
     E aconteceram alguns comigo. A pista, apesar de no geral ser bem segura para se andar, tem algumas imperfeições para as rodas de um patins. Ela é bem lisa no geral, mas folhas de árvores que caem, frutas no chão, além de pequenos buracos, dificultam um pouco. Tive que apertar as rodas dianteiras de meus patins umas duas vezes em quatro horas. Normal. Nesses trechos, eu caí algumas vezes, caia de bunda, quem via achava engraçado, e eu estava de bom humor, eu próprio ria dos meus erros. Eu caía principalmente na curva que havia para passar de uma pista para outra. Nessas curvas, nas duas primeiras voltas, eu diminuía a velocidade e punha as mãos no chão para se fazer as curvas - muito engraçado; em outras duas curvas, eu consegui, quase caindo pra frente, fazer a bendita curva.
     A minha velocidade foi aos poucos aumentando. A cada vez que eu aumentava a velocidade, sentia que logo logo cairia. Não há problema algum em se cair num esporte como esse, mas como eu estava desprovido de capacete, joelheira ou qualquer proteção - minha única proteção era uma mochila em minhas costas - uma queda é sempre algo a se temer. E às vezes eu olhava para o meu patins, a impressão que dava era de que a base que sustenta as rodas estava entortando, e entortam mesmo, mas eles são feitos pra isso, pra deixar a volta mais fácil. De qualquer maneira, estava com um tremendo medo de quebrar o patins: demorei muito para comprá-lo, o patins é um patins de boa qualidade, caro, imagina se quebrasse!!! Deus me livre e guarde!!! Minha mãe não me compraria outro nem tão cedo.
     Mas não, ele não quebrou.
     Depois de um tempo, percebi que tinha um calo na lateral direita do meu calcanhar direito, o esquerdo estava normal: esse calo me ensinou muita coisa, e só posso agradecê-lo. Ele me mostrou que a posição de minha perna estava errada quando eu andava, e logo ele me ensinou que a maneira correta de se andar com um patins é a maneira que eu não machucasse mais ainda esse calo. Logo, ele foi meu verdadeiro professor. Nós aprendemos com professores, mas aprendemos ainda mais com o nosso próprio corpo. Ainda tenho muito que aprender, com certeza mais calos virão, mas é isso aí!!!!
     Não fui hoje cedo para o Parque por causa desse calo: pus Elixir Sanativo na ferida, e agora, terei que esperar a cicatrização. Queria estar lá agora, nesse momento, mas estou aqui!!!
     Estou doido pra me juntar com o pessoal do Recife In Line!!!

      
          
      
    
  

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Páginas de diário pessoal 1 - Passei em Biomedicina

Eu passei em Biomedicina. Estou sim muito feliz por isso, mas não falo para ferir aqueles que não passaram, para que eles fiquem tristes nem se achem inúteis ou incompetentes. A hora deles irá chegar, como a minha chegou agora, depois de muita espera e esforço: terminei o ano esgotado, mas ao ver o Listão (e ponho em letras maiúsculas para salientar a importância que uma mera lista tem para muita gente ansiosa), renasci.
   Eu custei muito a ver uma luz no fim do túnel durante meus estudos, minha reprovação me era iminente, e eu era um garoto frustrado com os anos anteriores, que no meu ponto de vista atual foram improdutíveis, ou então, produzi menos do que minha capacidade permitia (talvez no futuro, como já em outras vezes me ocorreu, minha visão mude). Mas então: voilà. O Listão saiu. Eu, com tão pouca vontade de não ver meu nome na lista, nem fiquei curioso de olhar o resultado, pois sabia que não iria passar. Estava na casa de minha tia, vendo meu primo fazer malhas impressionantes com o Paint, assistindo a Harry Potter ao lado de minha prima, lendo “Amor em Terra de Chamas”, não me lembro exatamente o que fazia. E então o telefone tocou, e tudo e todos ao meu redor, como eu me lembro hoje, pareceu que havia parado. Foi um recurso cinematográfico que criei em minha mente, inconscientemente (ou não, já que o estou mencionando aqui), para que aquele momento me parecesse mais especial e importante do que ele realmente é ao longo do tempo, e o gostinho da vitória permanecesse em meu paladar, que aroma fosse se desenvolvendo aos poucos, bem lentamente, no fim, interferisse na explosão de todos os meus sentidos.
     No telefone, minha mãe chorava, e eu não entendia o porquê, a voz dela estava embaçada, e ela tentava me passar uma mensagem que eu não compreendia. E então, ouvi pessoas por trás do telefone gritando que nem leões famintos, e fiquei com medo de que eles fossem me devorar. Só então percebi que eram gritos de euforia, de torcida. E então, com aquilo tudo, deduzi o que minha mãe me dizia “Meu filho, você passou!!!” e eu sem compreender, fiquei parado, observando minha prima Laís me observando sem me entender do mesmo jeito.
     É fundamental que o corpo esteja preparado para receber determinadas informações e se manter em pé, em terra firme, sem se tremer e os músculos não se contraírem. O problema é que nossas reações são trabalhadas em conjunto com neurotransmissores, que por fim, fizeram minhas pernas tremerem. Eu depois não pensei mais nas pernas tremendo, eram pernas tremendo e nada mais. O que poderia haver além de uma perna tremendo? Nada mais?
     Depois que desliguei o telefone, logo após ter recebido a notícia, fui até a mesa na sala de minha tia e retomei o livro. Antes, as palavras daquele livro pareciam-me difíceis, ou desconexas. Precisava repetir algumas vezes para entender alguns parágrafos. Não que o livro fosse complicado, apenas tenho dislexia e minha concentração é relativamente baixa. Mas agora, por milagre, eu entendia tudo. Já não estava pensando no fato de que havia passado em biomedicina, estava muito, mas muito concentrado no livro, e li sete páginas sem precisar repetir uma linha sequer.
     Algumas semanas depois, fiquei pensando na minha frieza diante desse fato. Meu ano de estudos havia sido recompensado e eu, frio como nunca, lendo um livro, com um aspecto todo calmo. Se alguns de meus futuros colegas de classe me vissem com uma reação daquelas, não me surpreenderia que falassem “você não merece esse curso, não dá o mínimo valor para ele!”, e não os questionaria.
     Por que será que eu reagi daquele jeito? Queria ter pulado de alegria como um menino que vi no youtube; queria ter mandado essa notícia para todos (minha família fez isso por mim, e eu, sem explicação, me senti um pouco incomodado com isso), queria estar com vontade de comemorar, mas quando marcaram uma pizzaria para comemorarmos, fui meio a contragosto.
     Minhas pernas tremiam. Nada mais? Minha leitura fluiu naturalmente. Acho que essa foi a minha maneira de demonstrar como eu estava satisfeito. Foi assim que eu expressei meu contentamento. Às vezes, eu me sinto tão estranho com minhas reações imprevisíveis, me sinto perdido com o que os outros pensam de mim, pois as vezes não compreendo suas reações, e quase sempre penso em como estou desagradando. Detesto isso. Mas agora, percebo que não sou uma pessoa fria. Apenas sou diferente. Ainda bem que sou assim.
     Cíntia e André, minha irmã e seu namorado, insistiram para que eu raspasse a cabeça. Depois de muita insistência, acabei cedendo e rasparam à gilete. Nos dias seguintes, me senti como um verdadeiro tubarão: minha cabeça estava arranhando muito. Eu deixei eles rasparem porque pensei “já que serei pelado no futuro (minha cabeça já demonstrava isso, vou ser que nem meu tio Amilton), melhor experimentar pra já ir acostumando”, e assim foi. Até que o cabelo cresceu rápido, embora ainda está, nesse momento, como se eu tivesse passado uma máquina 2.
     Mas aos poucos, minha frieza inicial foi sendo aos poucos deixada de lado. É como se eu fosse uma borboleta dentro de um casulo pronta para despertar: eu ainda estava dormindo, aquela semana inteira havia sido sonhado em algumas horas, como naquele filme “A Origem”, pensei. Mas não, o listão estava impresso ao meu lado, e meu nome estava lá: GABRIEL NERY DE ALBUQUERQUE REGO. Recebi mensagens de celular. E então, eu acordei, e muito bem humorado. Havia despertado para a realidade com uma certeza absoluta: eu havia passado em Biomedicina, segunda entrada, na UFPE.
     Uma nova atitude: entrei no Orkut para conhecer meus futuros colegas. Criei um post, perguntando o que eles fariam durante os seis meses. Achei que muitos haviam posto segunda entrada por insegurança, como eu. Mas não. Puseram segunda entrada não por insegurança, mas porque tinham que trabalhar. E então, comecei a pensar “caramba, eu nunca na minha vida trabalhei...” quase aconteceu, mas não deixei que esse pensamento me afligisse, não me deixei fazer comparações. Pensei, eles tem os problemas deles, as opções viáveis a eles, e eu tenho as meus. Estava de muito bom humor para me deixar me abater por isso e me sentir um vagabundo preguiçoso.
     Conheci alguns de meus colegas pela net, em especial Cândida Priscylla. Ela é um amor de pessoa, nos conhecemos um dia antes da matrícula, pelo MSN, e logo marcamos de jogar UNO por lá, foi uma coisa até engraçada. Pena que não deu, pois tive que sair cedo para uma ultra-sonografia marcada de dez horas. Só conheci pessoalmente Rita e uma menina que tinha um sorriso lindo, de quem não me lembro o nome (Marina, Mariana, algo assim). Depois eu vi as fotos de Pri, meus futuros colegas foram visitar o CCB (Centro de Ciências de Biológicas, nosso futuro prédio) e o CCS (o de Saúde). Eu estava doido pra conhecer o pessoal pessoalmente, pena que não deu. Queria poder subverter as leis da física e estar em dois lugares ao mesmo tempo, mas ainda não criaram esse mecanismo. Mas um dia, eu estarei lá, naquele centro, naquelas fotos.  

sábado, 12 de fevereiro de 2011

A história da água - Uma paisagem

Afinal, o que de fato define a importância subjetiva de uma paisagem em nossas vidas? Poliana Dantas.

     Afinal, o que é uma paisagem? Por muito tempo, e não sei bem o motivo, o único elemento que estava presente naquilo a que eu chamava paisagem era a água. Embora geograficamente paisagem seja aquilo a que, a qualquer hora e a qualquer lugar, como se não houvesse uma hierarquia de graus de beleza - e ainda que esse conceito seja bastante subjetivo, visto que há a beleza que floresceu naturalmente do seio da terra, e há também aquela que os homens, como seres progressistas que são, verticalizaram em edifícios gigantescos, em imensas obras de arquitetura sem vida, em obras que operários de inchada na mão e mal remuneração ou outrora, e ainda hoje em certos lugares, levando chicotadas nos trabalhos forçados, levantaram. Quando penso nisso, só penso nas imagens de filmes que já vi, como Ben Hur (o trabalho forçado nas galés), ou em relatos da Bíblia, como o cativeiro do povo de Javé nas terras do Egito, mas sou incapaz de perceber a dor da gente que sofre hoje, como se o sofrimento só fosse significativo se ele ajudasse a cimentar as raízes da história, e as dores modernas fossem vistas não como algo significativo por si sós, mas como se os acontecimentos fossem cíclicos, e esses ciclos nos remetem de volta à dor antiga. Os nossos netos acharão as dores contemporâneas, nossas, não deles, tão significativas quanto achamos significativas o sofrimento, o sangue derramado, as degolações, os enforcamentos, os esquartejamentos, e o que partes expostas de corpos humanos em postes representam, no que concerne em seu significado, e aí não interessa se os emissores da mensagem foram eficazes em transmitir o código ou se os receptores foram incapazes de descodificar, tão significativas quanto achamos significativas a história dos hebreus ou a queda de Roma. Eles próprios, no entanto, terão as mesmas dificuldades de achar o sofrimento contemporâneo, deles, não nosso, significativo: e a história se repete. Espero francamente que a mão do destino quebre a seta que indica a direção desse circulo em sentido horário - nossos olhos captam muitas vezes sem discernir o belo do feio, sem a emoção necessária para se dizer: "essa é uma bela paisagem".
     E então, eu via lá em baixo, lá em Piranhas, ou quando olhava para Recife e Olinda no Alto da Sé, eu dizia, "que bela paisagem", mas não sentia nem pressentia que meus sentidos iriam aflorar, como se eu fosse voar. Eu queria me transformar em água, em um solvente puro e doce, capaz de abarcar e de reagir a vários solutos, numa dança de vida e de graciosidade, a dança das ondas, das marés enchendo, dos lagos que aos poucos se formam, como se eu fosse me tornar o palco para o balé dos peixes, para os rituais sociais e os jogos de acasalamento, fruto da seleção sexual necessária para o melhoramento genético.
     Podia percorrer distancias imensas sem ver terra firme num veleiro, onde as paisagens se tornam homogêneas, indiversificáveis, e ainda assim, diria "que belas paisagens". Como transformar em algo único algo tão comum, algo que nossos olhos descobrem já não poderem mais lhes impressionar, lhes cativar? Heráclito de Éfeso, filósofo grego, já dizia que um rio não mais seria o mesmo de um segundo para o outro, que as águas adquiriam novas formas a partir de um momento, que, depois de um momento, já não mais seria o mesmo. E nós também, no decorrer do tempo, no segundo subsequentes, já não mais somos os mesmos. O eu antes de entrar na água sou um, o durante sou outro, e quando sair...
     Quando sair, já não sei o que serei. As águas também já não saberão.
     E o rio que escorre no chão de casa, com a poeira que absorve, e que já sobe pelas paredes, também já não é o mesmo.

(Continua...)




segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A história da água - E o rio corria seu curso...

     E o rio seguia o seu curso por caminhos indeterminados...
     Quiseram sempre os homens, não desde os primordios, mas desde o florescer da consciencia de poder, ter controle sobre tudo; tal consciencia surgiu em fator de algo que não cabe a mim investigar, finjamos então que essa consciencia nasceu como nascem moscas em pedaços de carne podres, por gerãção espontânea; logo, as moscas voarão para apoquentar a própria consciencia dos indivíduos.
     E já não me vem à cabeça aquilo que os homens dominaram primeiramente. Como poderia? Seria um livro de história, escrito por influentes historiadores com base no que também influentes arqueólogos e antropólogos investigam, que me abençoaria com tal conhecimento? Desvendar esse sentimento tão intrínseco e misterioso - e, pelo fato de sermos também humanos e consequentemente também termos a ambição de ter controle, de possuir tudo, incluindo a posse da verdade, do saber como essa consciência foi construída, e de como ela evoluiu, segundo por segundo, movimento por movimento, e se perdermos um movimento, perdemos o fluxo do saber, nos sentimos perdidos - se tornou imprescindível, mesmo que tal conhecimento não vá interferir em nada na vida dos outros, nem contribua significativamente para a ciência movida à capital; trata-se exclusivamente da ciência substancial, aquela pela qual Fausto sofria em sua câmara sombria, em meio aos móveis velhos de seus antepassados, onde estão guardados pergaminhos e alfarrábios que, apesar de serem apóstolos de sua sabedoria, não trazem o conhecimento absoluto, e portanto, relegados à poeira e ao esquecimento.
     Vendo o rio correr pela cerâmica branca da sala, observava o seu curso, e queria, como num jogo de sorte, a apostar todas as minhas fichas e girar a roleta russa. Apostaria no fato de que ele iria seguir para a direita, embora não prestasse atenção nos fatores externos, como a declividade do terreno ou a direção do vento; o importante era saber para onde ele iria, sem um mínimo de esforço e de inteligência.
     Apenas saber!!!
     Mas não, ele não foi para a direita...
     ... e então, percebi que não tinha influencia nenhuma no curso da verdade...

(continua...)

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

A história da água - E havia uma poça d'água no chão...

     As minhas mãos não seguraram direito o botijão, que caiu no chão. Era um velho e grande recipiente d'água que já não sei há quantos anos, por sorte do destino ou por uma probabilidade um tanto quanto favorável, havia retornado ao nosso lar e às minhas mãos, que sempre o punha para lavar com espuma antes de o pôr para o consumo de todos os familiares e visitas que aparecem sem avisar.
     Na verdade, não sei bem a história do velho recipiente, do objeto de plástico ancião, e, se haverá alguma história a lhe ocorrer, essa história se deverá não necessariamente ao destino que humanos de bem senso, ecologicamente corretos, lhe darão, mas ao fato de que ele rachará à luz do sol e se aliviará à chuva da noite, visto que chuva é feita do mesmo material o qual originalmente era sua incumbência guardar. E talvez a história se divida em três, pois foram três as partes que se separaram de um inteiro, mas uma divisão "democrática", não comunista. O destino será ou a reciclagem ou a passividade ante a ação do tempo, até que este lhe consuma em algumas centenas de anos. 
     Quando peguei o botijão nas mãos, não me apercebi das suas características particulares. Não saberia distinguir entre o desse dia ou o do anterior. Um objeto similar a outro só é distinguido através de pequenos arranhões, imperfeições imperceptíveis a olhos desatentos, tamanhos insignificativamente diferentes, e, pela ação do tempo, a variação de brilho, da opacidade do novo com um velho. No caso dos homens, além da fisionomia, há as rugas. Mas saberei, a partir de agora, que aquele, exatamente aquele botijão, não fará mais parte da minha vida, e se vir um similar em minhas mãos outro dia, em minhas alucinações poderei retornar ao dia anterior.
     Não fará parte da minha vida. Mas da minha memória... foi quando o botijão caiu de minhas mãos, e a água se espalhou pelo chão da sala, coberto de cerâmicas brancas. Eu dei um grito de raiva, pois havia cedido àquilo que eu lutava para não ser: agente de um desastre.
     Nunca esquecerei aquele pedaço de plástico suspenso em minha mão, a parte oposta era afiada e pontuda, como uma faca. Foi o pedaço que depois do desastre não largou da minha mão, o que eu, pelo meu instinto de raiva e indignação, num movimento de revolta, pondo a mão em punho cerrado, segurei firme e determinado. E agora, não saberia dizer por que não soltei aquela plástico cortante. Tanta determinação seria estupidamente inútil, não?
     E então olhei para aquela água que escorria pela cerâmica. Eu era senhor de um rio de águas translúcidas, e se alguém com pé sujo pusesse-os em cima, viraria lama!!! Ouvia as vozes ao meu redor, meu avô "nessa família só tem mão furada!", e minha mãe "meu filho, tem que prestar atenção nas coisas, acordar pra vida!"
     E o rio ia seguindo seu rumo... pelas cerâmicas brancas da sala.

(continua...)